Que o pensamento seja sempre veículo da liberdade



Agenor Bevilacqua Sobrinho é professor de Filosofia e de Sociologia. Graduado em Filosofia pela USP (Universidade de São Paulo) e Mestre em Artes Visuais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista) com o trabalho intitulado: "Bertolt Brecht - arte crítica e 'globalização': um realista num mundo irracional".

Envida esforços constantemente para a inclusão de camadas populares no mundo da sensibilidade artística.

O trabalho de Agenor Bevilacqua Sobrinho é empreendido como projeto incessante de incorporação dos conhecimentos humanos em diversos campos, no sentido de desvelar os mecanismos de dominação e reprodução sociais, produzindo crítica fecunda à sociedade. Para ele, a função social do teatro e da arte (seu estatuto) é contribuir para a mudança de visão de mundo e da realidade material, apresentada como histórica, construída pelos homens em convívio, e, portanto, transformável. Como Bertolt Brecht, poeta e dramaturgo alemão, aponta a necessidade de ações do espectador nesse sentido e alimenta a esperança de uma sociedade mais justa.

A arte servindo como referencial para as crianças e os adolescentes, estimulando outras formas de sensibilidade e expressão artística, criando, assim, visão do mundo crítica, já que muitos nunca freqüentaram teatro. E aí o duplo estímulo: leitura e encenação na própria escola.




Idéias
Que o pensamento seja sempre veículo da liberdade.


2009

Ano da alegria
Para todos os ímpares
Desfrutar de cada momento
Sabendo que logo após a travessia
O caminho recomeça

Olhar sem se importar com os ferimentos
Lutar até a última batalha
Saber falar quando pertinente
E ser impertinente quando devido,
Ou seja, quase sempre

Mas não esquecer jamais de aprender
Procurar saciar a curiosidade
Que amanhã ela acordará sedenta outra vez
Não deixar de alimentá-la constantemente
Assim descobriremos o caminho do conhecimento.



A utilidade das guerras, segundo os generais:

As guerras não podem parar
Observem o imenso desemprego que isso causaria
Os que clamam pela paz escarnecem das necessidades laborais alheias.




PRÁTICA DE ENSINO DE LITERATURA: A PRESENÇA/AUSÊNCIA DO DINHEIRO NA LITERATURA (Módulo II).

PROGRAMA: O curso aqui proposto tem como objetivo analisar e discutir a representação do dinheiro na literatura, tomando como objeto uma seleção de contos, romances, textos teatrais, poemas e poesias de diferentes períodos, contextos sócio-históricos e características formais. Partindo de uma leitura analítica dos textos em questão, o curso propõe-se a examinar, através das estruturas ficcionais analisadas, de que forma as figurações literárias do dinheiro podem fornecer elementos para uma compreensão crítica dos processos sócio-econômicos e das perspectivas ideológicas envolvidas.
Viabilizar instrumentos teórico-práticos que permitam a reflexão crítica da realidade a partir de textos literários.


PERÍODO: de 21 de outubro a 02 de dezembro de 2008, às terças-feiras, das 9h às 12h.
Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Serviço de Cultura e Extensão Universitária
Informações: 3091-4645, e-mail: agenda@usp.br



PRODUÇÃO DAS(OS) ALUNAS(OS)



PATRÍCIA OLIVEIRA GARCÍA MÓDOLO — patriciamodolo@ig.com.br

Texto base: "Germinal", de Émile Zola.


A mulher em todos os tempos

Não são negras, nem mestiças...
Mulatas? Não falam nossa língua.
Estrangeiras!

Tempos amargos que em nosso país
reinava
O produtor de café,
Morria
Quem não cheirava rapé.
Ralés!

Não possuíam o gingado
Da mulata assanhada
O tabuleiro não continha
Acarajé, bolos ou cocada.
Suas faces
Não são enegrecidas
Pela melanina
É carvão...
Da cova que é a fria mina
Suas cores resumem na anemia
Do triste azul que somente
Ao triste olhar pertence

Vida maldita, abortada, traída!
Sem princípios, moral ou comida.
Pernas abertas
Ao bel prazer adônico
Bocas seladas,
Resignadas pelo abandono.
E o germe miserável
Parido aos borbotões
Continuam invencíveis
Avançando gerações
Tempos passados
Tão presente na razão
De quem observa
O cotidiano desta nação

Não se trata do lugar, tempo, espaço:
— A submissa resignação
Não atinge as feministas!
A alma anarquista diz à revelia
Grita a inconformidade dos dias:

Mãos! Coração! Revolução! Razão!
Basta! Mordaça! Pancada! Criada!
Tenha! Conceda! Receba! Sobeja!







HELOÍSA ROBLES — heloisamoura@hotmail.com


Texto baseado nas seguintes leituras:

ZOLA, Émile. Germinal. (1881)
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. (1938)
MORAES, Vinícius de. Operário em Construção. (1970)
HOLLANDA, Francisco Buarque de. Construção. (1971)

“Se algo capaz de perdurar e renascer na História pudesse ser alcançado pela ação humana, esse algo viria da massa dos pobres.”
(Bertolt Brecht)

Tempestade de neve (G.G, p.1149)

A tempestade nos gela
Quem vai resistir a ela?
Quem fica?Vê se descobres:
“A terra, as pedras e os pobres.”
(Bertolt Brecht)



O germe da mudança

A luta pela liberdade e igualdade de condições vem marcando a história dos povos com movimentos populares, em busca de um ideal de justiça e contra a opressão. Tornou-se necessário o surgimento de líderes que interiorizaram essa mudança, mas que, muitas vezes, sucumbiram, por falta de ações grupais mais efetivas, as quais pudessem levar as comunidades a gerar mudanças político- econômicas importantes em diferentes sociedades.

Em Germinal, de Émile Zola, as minas ferviam ao calor da Revolução Industrial do século XIX, concentrando, debaixo da terra, muita injustiça social, com o trabalho infantil imensamente explorado e a riqueza produzida pelas máquinas e por operários, concentrada nas mãos dos industriais. O germe da mudança desenvolvia-se subterraneamente, com grupos de discussão e de idéias que afloravam num desejo de vingança e de reação coletiva. Mas as minas tragavam os trabalhadores, física, emocional e psicologicamente, fazendo com que suas tentativas de organização se esvaziassem diante das promessas de ”líderes messiânicos”, corrompidos e iludidos pelos patrões. A Igreja e outras instituições sociais, que também se diziam “representantes populares”, mostravam-se indiferentes ao trabalho dos operários e de sua sede de mudança. Conseqüentemente, muitas associações de trabalhadores se desfizeram, e os proprietários das máquinas continuaram controlando a produção.


O desejo de liberdade também existia em Fabiano, de Vidas Secas. E a ausência de vocabulário do personagem demonstrava sua revolta e contenção emocional. Entretanto, Fabiano era bastante lúcido sobre sua condição social, sabia o que queria. Como retirante do nordeste brasileiro, tinha consciência do sistema injusto que o expulsava da região, que o mandava para outro local e da natureza agreste que teria de enfrentar. Fabiano desejava ser vaqueiro com os meninos estudando em boas escolas; almejava que Sinhá Vitória tivesse uma cama como a do Sr. Tomás da Bolandeira, que ela pudesse se vestir como as moças da cidade e que Baleia os tivesse acompanhado até outro destino. A consciência de sua situação de oprimido existia, mas Fabiano se sentia sozinho e impotente; o máximo que fizera fora reagir contra a agressão do Soldado Amarelo, o que lhe custara alguns dias na prisão.

O livro de Graciliano Ramos apresenta uma narrativa circular, fechada em sua construção: quando se inicia com a “Mudança” e termina com a “Fuga”, ou seja, nada se havia alterado para Fabiano e sua família. O germe da liberdade se movimentava dentro dele, representado pelo tempo psicológico denso de toda a narrativa, porém a ausência de uma ação coletiva impedia-lhe de romper com a fatalidade frente a uma natureza agressiva e a um sistema político-social desumano. O retirante teria de buscar outro destino, uma vez que qualquer iniciativa de rebelião coletiva era apagada e dominada pelos grandes proprietários de terra. Comparado a um animal, sem palavras para se expressar e sem um grupo social que o mobilizasse, Fabiano continuaria em fuga, numa mesma situação, deixando sua indignação e seus sonhos por onde passava.


Em “Operário em Construção”, de Vinícius de Moraes, a contestação é mais evidentemente descrita. O germe da mudança existia no “operário em construção”, que ia, pouco a pouco se tornando “operário construído”, quando percebia “que tudo o que fazia pertencia ao patrão”. E essa conscientização vai crescendo dentro do poema, demonstrando o amadurecimento do personagem e sua ação efetiva, previamente preparada para dizer ”não” à opressão, ao trabalho forçado, ao patrão corrupto, questionando, até mesmo, a sua simples profissão de operário injustiçado pelo sistema. Na medida em que este trabalhador atinge a “dimensão da poesia“ e se torna um “operário construído”, sua consciência de trabalhador já se torna universal como a arte, livre de preconceitos e valores: o genuíno sentimento contido no peito de cada ser humano e o coração repleto de sonhos. O operário já construído conseguiu expandir sua ação e outros se juntaram a ele, movimentaram-se num verdadeiro repúdio coletivo às injustiças que sofriam, num forte e verdadeiro movimento de classe .


Em “Construção”, de Chico Buarque de Hollanda, a tentativa de mudança existiu, mas não foi conquistada. O operário subiu a construção elevando o edifício, desta maneira projetando também a sua liberdade, acusando um sistema político-social injusto, tentando construir outro mais humano, para mudar de vida, mas fracassa: “flutua no ar como um pássaro” que buscava a paz, “morre na contramão atrapalhando o tráfego, o sábado, a vida”, numa atitude individualizada, com um grito fracassado contido no peito, tornando-se um estorvo social.

“Deus lhe Pague”, segunda parte do poema em música, parece ainda reforçar a alienação do injustiçado social que ainda agradece ao patrão por poder fazer parte da sociedade, ou uma crítica aos ensinamentos religiosos de agradecimento e humildade constantes, que valorizam a vida, mesmo sem condições básicas .


O germe da mudança existe em todo ser humano, porque buscamos aberturas pessoais, profissionais e sociais, na conquista de uma vida mais digna. Muitas vezes, a ação fica tolhida, muito individualizada, dispersa, o grito não ecoa, mas fica contido no coração dos cidadãos, na espera de um momento adequado para resultados concretos e de ações evidentes. Ações coletivas têm demonstrado alterar o curso da história dos povos, seja quando se combatem governos autoritários, seja quando se coloca um presidente popular no comando do país, seja quando há o comparecimento maciço às urnas, gerando protestos e elegendo um presidente das minorias. O povo clama emocionado por mudanças, acredita que seu voto e ação lhes trarão benefícios futuros e, gritando um ”não” à ordem estabelecida, tenta mudar o processo histórico-político-social de seu país.







PRISCILA ALMEIDA — priscila.alves.almeida@hotmail.com

Texto base: “Por causa dos dólares”, de Joseph Conrad.


Por causa dos dólares, ontem e hoje

Sempre ouço que, quando lemos um texto, não devemos deixar de lado seu contexto histórico, uma vez que, em muitos casos, não mais acharemos correspondência entre o que determinado texto trata e a realidade de nosso mundo. É claro que essa frase faz todo o sentido e a contextualização é sempre muito benéfica quando lemos algo. O que eu acho ainda mais curioso, porém, é justamente o contrário: observar a quantidade de semelhanças entre nossos tempos e os tempos que já se foram. E há coisas que parecem não mudar.
No texto "Por causa dos dólares", de Joseph Conrad o que mais me chamou a atenção foi a bondade de Davidson, herói da história. Era uma bondade que não cabia em seu mundo e que se tornou, de certa forma, o principal motivador de sua tristeza. Essa bondade não cabia em um mundo repleto de espertalhões prontos a devorá-lo.
Se traçarmos um paralelo entre nossos dias e os dias em que o texto foi escrito (em 1914), notaremos várias diferenças históricas que nos separam, como a Primeira Guerra Mundial que se iniciava e que há muito já terminou (ou foi substituída pelas novas). Porém, notaremos igualmente pontos comuns.
A bondade hoje também não encontra espaço (encontrou um dia?). O lema hoje é "o mundo é dos espertos" ou "salve-se quem puder", se preferir. O recado é o mesmo: pense só em você, os outros que se virem.
Outro dia encontrei minha irmã lendo um desses livros de auto-ajuda intitulado "Mulheres boazinhas não enriquecem". Quando li o texto de Conrad, lembrei instantaneamente do livro e de como o mundo ainda privilegia o dinheiro à bondade. Na época, achei que o livro refletia bem o pensamento individualista da pós-modernidade, como alguns nos classificam. Hoje penso se não classifica bem outros (ou todos) os tempos. "Homem tem dominado homem para seu prejuízo", dizia a Bíblia. Apesar disso, a busca do lucro ainda é o que nos impulsiona.
Muitas "Annes" (nada risonhas), espalham-se mundo afora, padecendo de suas desgraças e pobrezas, em contraposição aos Davidson, escassos e bondosos. Já os "Franceses", existem hoje em todas as nacionalidades e seus comparsas, "Bamtzes", "Fectares" e outros crescem cada vez mais. Estão hoje em todas as categorias. Como nos diria o samba, os 'malandros', como poderíamos chamá-los, modernizaram-se e andam por aí "com aparato de malandro oficial" e até "malandro candidato a malandro federal".
No texto, nos consola saber que o herói é humano. Humano e bom. Tem medo e se preocupa com os outros. Porém era único. Talvez precisássemos de mais davidsons, que, invertendo a situação, não dessem lugar aos vilões do mundo real, em que só caberia a bondade dele.
Resta a esperança. Mas, como ouvi alguém dizer, a esperança é boa, se não a traduzirmos por "esperar". Creio que, se assim fosse, não nos tornaríamos davidsons, e sim pedros pedreiros e terminaríamos nossos dias com uma mera "esperança aflita, bendita, infinita” de algo que nunca chegará – se não houver ação.







JAQUELINE ARAÚJO DOS SANTOS — jaque.santos@ig.com.br

Texto base: “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos.


Dores na estrada

O sol queimava.
Impossível ver, o mundo escurecia.
— Anda peste... caminha diabo...
O vento quente do sertão ecoava ... Ôeooooo....êioaa...ôeo...
— Ô, égua maldita, vai pari na estrada? Anda peste... tem socorro não...
— Caminha
Eoê.....êioaa..... eoê...........êioaa...............
Nossa Senhora dos partos não chegou,
Não teve precisão.







JAQUELINE ARAÚJO DOS SANTOS — jaque.santos@ig.com.br

Texto base: “Germinal”, de Émile Zola.


Condenação

No gélido e escuro fosso de Voreux, ouvia-se as sentenças....
— Maheu cometeu ingratidão ao chorar no momento em que recebeu seu ordenado. É condenado a descer às profundezas da vergonha e ser acorrentado pela impossibilidade de mudanças.
E os cabos rangiam inexoravelmente....
— Zacharie foi incontinente. Permitiu que perigosos larápios mentissem aos mineiros. Como cúmplice é condenado à pena de morte.
E os cabos rangiam inexoravelmente....
— Jeanlin é classificado como traidor. Recusou-se a servir seus senhores com suas destrezas de garoto vivo para acolher um subversivo. É condenado a perder toda sensibilidade humana e a viver como um animal de carga.
E os cabos rangiam inexoravelmente....
— Etienne é considerado como o mais temível dos criminosos. Apoiado em fantasias, fomentou entre os mineiros o sonho de salários justos e dignidade humana. Ainda é acusado de organizar insurreições e mobilizar trabalhadores para a luta.
PROCURA-SE VIVO OU MORTO.
E os cabos rangiam inexoravelmente....







JAQUELINE ARAÚJO DOS SANTOS — jaque.santos@ig.com.br

Texto base: “Germinal”, de Émile Zola.


Desumanização = miséria, ignorância, ‘resistência a resistir’.

Émile Édouard Charles Antoine Zola (1840-1902) iniciou sua carreira literária na segunda metade do século XIX com Contos para Ninon (1864). A princípio, Zola fundamentou sua narrativa nos motes da estética romântica, mas o conhecimento de teorias positivistas e o árduo contato com Taine, Stendhal e Balzac o levaram a desenvolver a teoria do romance experimental (1). Convicto de que o homem é condicionado pelo ambiente social em que está inserido, Zola escreveu narrativas em que enfocou aspectos da sociedade e suas influências. Dentre as obras mais conhecidas temos A Fortuna dos Rougon (1871), Nana (1880), Germinal (1881).
Germinal (1881), considerada pela crítica como a obra prima do escritor, retrata em 40 capítulos a vida de mineiros que trabalham na extração de carvão na França.
A história começa com a marcha de Etienne Lantier, que após ter esbofeteado seu chefe em uma fábrica de Marchiennes, parte para Montsou em busca de emprego.
Em Montsou, Etienne conhece Boa-Morte, que sem voz ou articulação — somente com seu nome e seus “cabelos brancos e ralos, rosto achatado, de uma palidez cadavérica” (2) — denuncia a Etienne as condições de vida daqueles trabalhadores.
No entanto, o que marca fortemente o ânimo do jovem forasteiro é a imagem aterradora do fosso de Voreux, que como um “bicho maligno” expirava ferozmente “como que sofrendo com sua dolorosa digestão de carne humana” (3). O buraco negro e monstruoso nos lembra o inferno dantesco, em que pecadores são dispostos em círculos que descem ao fundo do globo terrestre. A descida às profundezas da terra faz parte do cotidiano de pobres homens, que ao contrário dos condenados da Divina Comédia (4), sofrem em vida punições dos delitos que não cometeram. E, ao invés de se disporem nos círculos da luxúria ou gula como os danados de Dante, os trabalhadores descem pelos movimentos circulares da fome e ignorância. E desta forma, privados das mínimas condições de subsistência humana, são impedidos de desenvolverem suas consciências, cuja ausência os condena ao inferno da ‘desumanização’.
A supressão de condições favoráveis para exercitar o intelecto e manifestar opinião leva os trabalhadores de Germinal a um esvaziamento de sua humanidade. Eles são conduzidos a um estado de inércia pelo trabalho que os consome e os impede de serem donos de si, isto é, que os alienam quanto indivíduos. O processo lento e contínuo de exploração a que são submetidos os transforma em pobres ‘homens-bichos’ que: não questionam, copulam ao céu aberto e se entregam às brutalidades da violência. Estes trabalhadores, acuados pelo sistema econômico que os domina, tornam-se insensibilizáveis a ponto de não lamentarem a morte de seus semelhantes. Este fato é bem caracterizado quando Maheu, ao saber da morte súbita de uma de suas gradadoras, exaspera-se com a possibilidade de produzir menos
“Maheu ficou desesperado: que má sorte a sua! Perdia uma das suas gradadoras, sem poder substituí-la imediatamente... É que trabalhava de empreitada; eram quatro britadores associados na sua zona de corte: ele, Zacharie, Levaque e Chaval. Se ficassem somente com Catherine para gradar, o trabalho atrasaria” (5).
Ferido por estes condicionamentos e tomado pelo orgulho de ser Homem, Etienne se inflama contra “a idéia de ter de ser um animal a quem se cega e esmaga” (6). Ele consegue compreender que a exploração a que estão submetidos não é uma condição Natural. Logo, sendo possuidor do seu direito de contestar, ele se convence do poder intelectivo do operariado que não “...deveria permanecer escravo do patrão que lhe pagava?” (7). Etienne, a partir de então, começa a enxergar com outros olhos as organizações econômicas, políticas e sociais e a sua posição como homem dentro destas conjunturas. Logo, deixa sua posição de passividade e tenta a todo custo intervir na realidade e criar uma força de resistência às injustiças vigentes.
Em outras palavras, Etienne aprende a intervir na História. Ele compreende que como sujeito tem responsabilidade de ser atuante em seu papel social, cultural e histórico. Munido desta consciência, cuja presença tem real importância para nós homens do século XXI, ele parte em luta contra o total fatalismo e aceitação dos sistemas exploradores.
Diante da postura de deixar a passividade para atuar, que não se concretiza sem um conhecimento de si e do mundo, temos a declaração do educador Paulo Freire, que diz:
“Por grande que seja a força condicionante da economia sobre o nosso comportamento individual e social, não posso aceitar a minha total passividade perante ela. Na medida em que aceitamos que a economia ou a tecnologia ou a ciência, pouco importa, exerce sobre nós um poder irrecorrível, não temos outro caminho senão renunciar à nossa capacidade de pensar, de conjeturar, de comparar, de escolher, de decidir, de projetar, de sonhar” (8).
Etienne, já ‘reeducado’ por sua nova leitura do mundo, não tem a intenção de se entregar ao fatalismo e de deixar de sonhar e lutar por melhores condições de vida. No entanto, ele esbarra em uma espécie de ‘resistência a resistir’, que há entre os trabalhadores e que parece sólida e pouco propensa a dar vazão ao exercício de contestar. Em geral, os mineiros são dominados por uma submissão que os faz acreditar que o silêncio e a inércia são condições para a sobrevivência. Catherine, por exemplo, ao ouvir Etienne relatar que tinha esbofeteado um chefe se sente “confusa nas suas idéias hereditárias de subordinação e de obediência passiva” (9). Pierron ao tomar conhecimento da função da caixa de socorro em uma greve empalidece e afirma que o “bom comportamento é a melhor caixa de socorro” (10). Mas é na figura de Boa-Morte que se tem a personificação viva da mentalidade destes explorados. Ele trabalha nas minas desde a infância, pertence a uma família que ali está há um século e narra suas ‘promoções’ (de aprendiz a gradador, de gradador a britador, de britador a carregador) como se tivesse orgulho de ter passado 45 anos de sua vida debaixo da terra. E num momento de lucidez — diante de sua família e de Etienne que refletiam sobre as péssimas condições de vida e sobre a possibilidade de mudanças — Boa-Morte mostra surpresa e incompreensão

“Descia um silêncio sobre o grupo, que respirava a custo, no mal-estar resultante desse horizonte cerrado. Apenas o velho Boa-Morte, quando estava, arregalava uns olhos surpresos, porque no seu tempo ninguém se preocupava dessa maneira: nascia-se no carvão, escavava-se no veio sem pedir mais nada. Agora, novos ventos enchiam os mineiros de ambição.
— Não presta cuspir no prato em que se come — murmurava ele. — Uma boa cerveja é uma boa cerveja... Claro, os chefes são quase sempre uns canalhas, mas sempre haverá chefes, não é verdade? Não quebrem a cabeça pensando nisso” (11).

Em Boa-Morte temos a figura do trabalhador vencido pela opressão e, portanto, incapaz de se colocar na “...marcha esperançosa dos que sabem que mudar é possível” (12). Ele é dominado por uma petrificação, que é fruto do processo de ‘desumanização’ a que vem sendo submetido desde o seu nascimento. Mas, aceitar a imposição da exploração e se dar por vencido devido aos ‘fracassos’ de tantos anos de luta não é a solução. O caminho a ser seguido talvez esteja na perseverança e na compreensão de que a luta dos mineiros e de todos os trabalhadores da atualidade é processualmente histórica. Para aquele que luta é indispensável saber que a sua geração ataca idéias, ideologias e interesses implantados em um distante passado (no caso dos trabalhadores de Voreux, suas condições de vida foram fundamentadas na servidão feudal) e que estes ‘fantasmas’ ainda atuam dentro das estruturas econômicas e sociais em contraposição a aspectos modernos. Logo, tem-se uma acentuada demora em concretizar óbvias reivindicações e para suportá-la é preciso perseverança e conhecimento. Sobre estas duas armas, Paulo Freire em um discurso direcionado a jovens e adultos de um projeto de alfabetização declarou:

“Se não tivesse havido muita chuva que choveu, se não tivesse havido muito sol que queimou, se não tivesse havido muita esperança que se desfez, esta tarde de hoje, possivelmente não ocorreria. Foi preciso que alguns morressem, foi preciso que alguns desistissem, foi preciso que fortalecessem sua coragem de briga e iluminassem o seu sonho de refazer o mundo para que esta tarde ocorresse” (13).

Logo, a luta travada por Etienne — que devemos ter também como nossa — consiste, sobretudo, em apagar do vocabulário dos trabalhadores os advérbios nunca e jamais. A certeza cega de que a organização das minas de Voreux “...nunca andara bem e jamais andaria” (14) é um dos grilhões que impedem os trabalhadores de reverterem sua situação de condenados.
O sistema secular de exclusão social que reina nas páginas de Germinal e reverbera até os dias de hoje em nossa sociedade, deve ser contestado e combatido nos âmbitos do conhecimento. Não do conhecimento frouxo e hipócrita que muitas vezes são disseminados nas instituições de ensino. Mas, de um conhecimento proveniente do ‘senso comum’, cujo aflorar desperta a consciência de ‘Ser’, que conseqüentemente leva o indivíduo à busca do ‘conhecimento erudito’ que lhe dará a consciência de ‘Poder’. Desta forma, munidos da consciência de ser Homem e, portanto, apto a atuar como tal e conhecedores do modo como o sistema e suas conjunturas acordam para que um quinto da riqueza do planeta permaneça nas mãos de poucos, é que poderemos vencer a ‘resistência a resistir’ e partir para uma marcha de conquistas.


Notas.

1. Corrente literária do século XIX que se propunha à observação fiel da realidade. O movimento literário tem como premissas a determinação que exerce o ambiente sobre o indivíduo e a função da hereditariedade.
2. ZOLA, E. Germinal. Abril Cultural: São Paulo, 1981. p. 15
3. Op. cit., p. 19.
4. Poesia épica disposta em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso), escrita por Dante Alighieri possivelmente entre os anos de 1304 e 1320.
5. ZOLA, E. Germinal. Abril cultural: São Paulo, 1981. p. 35.
6. Op. cit. p. 75.
7. Op. cit. p. 175.
8. CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002. p. 44.
9. ZOLA, E. Germinal. Abril Cultural: São Paulo, 1981. p. 51.
10. Op. cit. p. 168.
11. Op. cit. p. 174.
12. CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002. p. 49.
13. CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002. p. 20.
14. ZOLA, E. Germinal. Abril Cultural: São Paulo, 1981. p.


Bibliografia.

ALIGHIERI, D. A Divina Comédia. Editora 34: São Paulo, 2003.
CALDART, Roseli Salete. KOLLING, Edgar Jorge. Paulo Freire um educador do povo. Anca-Associação Nacional de Cooperação Agrícola:São Paulo, 2002.
ZOLA, E. Germinal. Abril cultural: São Paulo, 1981.
FORRESTER,V. O horror econômico. Unesp: São Paulo, 1996.





PRÁTICA DE ENSINO DE LITERATURA: A PRESENÇA/AUSÊNCIA DO DINHEIRO NA LITERATURA (Módulo I).

PROGRAMA: Constatando que, em nossa época, a economia condiciona a política, examinaremos a presença/ausência do dinheiro na vida de personagens literários dos séculos XIX e XX, contextualizando historicamente os momentos que originaram os textos selecionados. A antologia de contos será analisada observando as possíveis interlocuções com a realidade brasileira contemporânea para a realização de exercícios de reescritura/recriação, com o objetivo de aplicá-los a estudantes de ensino médio da rede pública.

PERÍODO: de 02 de junho a 30 de junho de 2008, às segundas-feiras, das 9h às 12h.
Universidade de São Paulo
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
Serviço de Cultura e Extensão Universitária
Informações: 3091-4645, e-mail: agenda@usp.br



PRODUÇÃO DAS(OS) ALUNAS(OS)




DANIELLE REZERA – daniellerezera@yahoo.com.br

Texto base de Edgar Allan Poe: “Nunca aposte sua cabeça com o diabo.”


Toby Dammit, pobre diabo, vive na miséria. Numa sociedade tacanha e excludente, apanha como um cão, e parece nunca aprender a “lição”. Sempre aposta o que não pode pagar, pois é fanfarrão. Até que um dia perde a cabeça, que rola no chão. E como para o enterro não tinha um tostão, acabou virando ração.




QUEILA RODRIGUES - queila.rodrigues@yahoo.com.br

Texto base de Leão Tolstói: "De quanta terra um homem precisa?"


Ironicamente inviável?

Eis o Movimento...
Ele está aí...
Lutando!
Lutando por aquilo que ainda não pôde conseguir.

Quebram tudo por onde passam...Invadem propriedades impróprias...Mas que absurdo essa gente!!! Sempre tentando se apropriar de terras alheias. Não vêem que não lhes pertence? Que é falta de educação ocupar o que é dos outros? Ora, ora! Esse povo não tem mesmo bons modos...Etiqueta. Precisam manter-se longe...Precisamos mantê-los longe...Bem longe. Vamos, me ajudem!!! Chamem a polícia, a tropa de choque, o exército, o Jornal Nacional...Ué, alguém precisa registrar isso...Informar a população, o mundo...O mundo precisa saber como essas pessoas são!

Ou será que não são?
Pensando bem, parece que estão tentando ser.
Existir.

Ah! Mas e porque não vão existir em outro lugar? Que idéia é essa de querer existir justo aqui...No que é meu? Como não? É meu sim! Meu bisavô passou pro meu avô, que passou pro meu pai, que passou pra mim. Então é meu, oras! E ponto. E não tem conversa. E outra, quem vier com esse papo de discutir sobre... Eu vou por pra fora mesmo!!! Quer saber, deixa isso pra lá, tenho mais o que fazer. Negócios. Se tudo der certo, e vai dar porque o meu Deputadíssimo amigo garantiu...Bem, se tudo der certo...Não. Melhor não divulgar...Certas notícias a gente dá em horário nobre. Ô, Alziraaaaa!!! Liga pro filho do Dr. Roberto, pergunta quanto ele cobra pra soltar outra notinha pra mim...

Enquanto isso...
Na sala de injustiça...

Quando a voz da consciência cala,
a voz da inconsciência fala,
o senso, é comum.
E a casa, que sempre disseram ser engraçada,
continua sem chão, sem parede, sem teto, sem nada...

Mas...
Eis o Movimento...
Ele está aí...
Em Movimento.




HELOÍSA ROBLES - heloisamoura@hotmail.com

Texto base de Leão Tolstói: “De quanta terra o homem precisa ?”


Paralelo entre o texto e a realidade brasileira

A posse da terra, símbolo de “status” e domínio social, levando à destruição do ser humano, que, insatisfeito com sua forma de poder, desespera-se e se destrói, é idéia central do conto de Leão Tolstoi: “De Quanta Terra O homem Precisa?" Esse questionamento torna-se amplo e profundo, partindo-se do indivíduo e de sua ambição de conquista, e ampliando esse conceito a Estados dominadores, que vieram, durante períodos históricos, estendendo seus horizontes e limites, usando esse recurso como forma de massacre a povos e culturas.
O conhecido “Sonho Americano” de levar a democracia e a liberdade ao mundo, tornou-se exemplo clássico de expansão territorial, quando diversas comunidades se chocaram, destruíram-se, embora ainda acreditassem numa mudança social e desejassem a sonhada liberdade com um futuro promissor.
Durante os vários períodos históricos, a posse da terra tornou-se um símbolo opressor, inclusive dominador de mentalidades, tirando dos povos a sua forma de sobrevivência, e privando-os do resultado de seu próprio trabalho.
No Brasil, a situação não foi e não é diferente. Como colônia de Portugal, tivemos que nos subjugar aos mandados do Reino, plantando aqui, colhendo e produzindo em território nacional, mas enriquecendo os cofres da Coroa.
A divisão do território brasileiro em Capitanias Hereditárias, nada mais foi que estratégia de domínio e exploração, justificada pela imensidão do território brasileiro. A terra passou a pertencer a um grupo de dominadores que pouco se importavam com a produção local, com a pobreza da população existente. E essa técnica de domínio tinha intenções ainda mais profundas, quando se pensava nas Capitanias como posse “de pai para filho”.
Dominadores não faltaram também no Brasil: os “Bandeirantes”, que recolheram nossa riqueza mineral e a destinaram ao Império; os bem – conhecidos “Senhores de Engenho” no Nordeste, que fizeram com que muita gente sucumbisse a seus pés, proibindo-lhes a divisão da terra e monopolizando a produção do açúcar, com a riqueza do território em suas mãos.
Atualmente, a situação se repete se pensarmos na riqueza da Amazônia explorada predatoriamente por madeireiros, usinas brasileiras e produção agrícola monopolizadas por firmas estrangeiras, enquanto a população brasileira se desintegra, buscando alternativas para o alto índice de desemprego no país.
A História se repete e temas cíclicos emergem como a destruição e a submissão dos povos. Estes vêm sempre vinculados a idéias capitalistas de engrandecimento, de força individual, direcionada ao domínio dos mais fracos e subalternos.
A Literatura é produto dessa realidade, desses acontecimentos históricos e, lendo-se um conto como o de Leão Tolstoi: “De Quanta Terra o Homem Precisa”, e outras grandes obras que trataram de temas semelhantes, como as de Jorge Amado, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, podemos refletir sobre a busca desenfreada de poder, agregada à destruição do indivíduo, muitas vezes do próprio dominador, que, não vendo limites à sua ambição de conquista, afoga-se na lama da terra almejada, na imensidão de sua cobiça.




ADRIANA ESTHER SUAREZ - adriana.suarez@usp.br

Texto base de Leão Tolstói - “De quanta terra um homem precisa?”

Paralelo entre o conto “De quanta terra um homem precisa?”, de Leão Tolstói, e a situação brasileira. As Capitanias Hereditárias.



Os conquistadores portugueses chegaram a estas terras e acharam que mereciam ficar com elas pelo esforço de ter passado meses no mar; por ter sido mais audazes e mais astutos do que outros.
Não sabemos quem foi que disse que aqueles valentes e esforçados teriam direito de apropriar-se de tudo. Muitos dos ambiciosos europeus foram como Pohám, a personagem de Tolstoi: eles tiveram a possibilidade de serem os donos do que pudessem abarcar no menor tempo possível. Senão, algum outro ficaria com tudo. Vários morreram no intento, ficando, portanto, só com a terra da cova.
Mais outros, melhor sucedidos, amigos dos poderosos, talvez, receberam na repartição das terras as chamadas “Capitanias hereditárias”. Essas eram terras entregues aos bravos amigos da coroa portuguesa, mas com o agravante de que essas terras ficariam para sempre como herança para seus descendentes.
Se já era injusto receber imensas quantidades de terras pelo fato de ter participado de viagens arriscadas, de matanças de nativos e por ter-se salvado de alguma peste; mais injusto ainda é que os filhos, netos, bisnetos e tataranetos fiquem com o botim sem ter feito nada parecido com as façanhas dos ancestrais.
Para que é necessária tanta terra?
Porque quanta mais terra, mais poder. Temos que ver nas posses de terras transmitidas pela herança, a representação de um poder quase infinito.
Hoje, ainda temos donos de terra ou “coronéis” que mandam nos prefeitos do lugar, nos governadores e até nos presidentes. Estes são somente funcionários públicos colocados temporariamente no “poder” para satisfazer as necessidades dos verdadeiros poderosos: os donos da terra que são em última instância os donos do país e os donos das vidas dos que habitamos nele.




CLEOMAR DE SOUZA LIMA - cleomar.lima@hotmail.com

Texto base de Guy de Maupassant: “O Colar de Diamantes”.


Sexta-feira, 15 de abril, Beatriz olha para seu pai e diz:
- Papai, o que o senhor vai me dar de presente de aniversário?
Seu pai lhe responde:
- Estava pensando em lhe dar uma boneca.
- Boneca?!
- Alôou! Papai, acorda! Eu já tenho 12 anos!
- Calma, filha! Desculpe se não percebi que minha filha já se tornou uma mocinha! Bom, se não é uma boneca que você quer...então... o que você quer de presente de aniversário?
- Eu quero um celular. Mas preste atenção, não é um celular qualquer. Eu quero o mais moderno. Um celular que tira foto e tudo mais...
- Ok, filha. Então vamos ao shopping.
Chegando ao shopping, Beatriz foi logo pra maior loja que vendia celular. Escolheu o mais caro.
Seu pai enrugou a testa e espantado falou:
- Mas, filha! Logo esse!
- Sim papai. Eu quero este. (só quero ver a cara de inveja das minhas amigas, segunda-feira, na escola - pensou Beatriz).
Mesmo contrariado, seu pai atendeu seu pedido.
Segunda-feira, 18 de abril. Beatriz foi a primeira a chegar na escola. (ansiosa para mostrar o celular - que tira foto e muito mais - para as amigas).
Numa roda de amigas. Beatriz, radiante, mostra o celular para suas colegas.
- Gente! Olha o celular que ganhei... tira foto e muito mais...
Sua “amiga” Maria Eduarda diz:
- Seu celular tira fotos?! Meu pai também comprou um celular pra mim. Ontem, fomos ao shopping. É o mais moderno que existe. Tira fotos, câmera de vídeo, MP3, acesso à intenet...
As amigas de Beatriz ficaram morrendo de inveja de Maria Eduarda (inclusive a própria Beatriz).




PATRÍCIA KISSE - p.kisse@gmail.com

Texto base de Scott Fitzgerald: “Dois por um centavo”

Exercício: criar uma contestação ao pedido da mãe (para que Hemmick permanecesse), fazendo-o finalmente sair daquela cidade.


Nenhum centavo

Ele poderia ter enfrentado a cidade inteira, mas não aquela mulher. Ela que já havia sofrido demais na vida, agora tinha sofrido mais um golpe duro, e pior, por culpa dele. Hemmick se martirizava enquanto pensava na tristeza da mãe e nas suas últimas palavras diante da decisão dele de ir embora.
“Hemmick, o dia em que você se for será o dia da minha morte”, disse ela. Hemmick, no entanto, achava que a mãe, com suas idéias antiquadas sulistas, não conseguia perceber que era ilusório achar que ele conseguiria provar sua inocência e teria um futuro promissor lá na cidade. A realidade era castradora, ele seria sempre culpado e os dois continuariam suas vidas miseráveis.
Mas o que falar para sua mãe? Como enfrentá-la? Ela não conseguia entender e ele sabia que deveria sair de lá o quanto antes se não quisesse desperdiçar a sua vida como os outros. Passou aquela noite em claro e quando amanheceu pensou ter encontrado a solução para o seu problema. Para isso precisaria somente de um centavo, um “feijãozinho” e uma casa abandonada.
Não foi difícil conseguir as três coisas. Casas abandonadas e velhas não faltavam naquela cidade, que acabava com os sonhos daqueles que queriam fugir da perpetuação da pobreza. “Feijãozinhos” também tinham em todas as esquinas e sempre dispostos a ganhar qualquer centavo. Este foi um pouco mais difícil, mas a idéia que não lhe viera antes, agora encontrara lugar no empréstimo com um amigo de sua mãe.
Escolheu o “feijãozinho” que lhe pareceu mais confiável e explicou-lhe o plano. No final da tarde, o garoto deveria entrar na casa velha da esquina, que pegaria fogo quando ele acendesse uma fogueira para se esquentar. Então Hemmick entraria na casa em chamas, resgataria o garoto na frente de todos e seria o novo herói da cidade. E o garoto receberia um centavo pela encenação. Hemmick, com sua reputação a salvo, teria pago a dívida com a mãe, podendo finalmente sair da cidade.
No momento combinado, o “feijãozinho” entrou na casa. Não demorou muito e as chamas já se alastravam. Hemmick, que fingia passar pela rua, logo entrou em cena, enquanto uma multidão se formava na frente da velha casa. Assim que entrou, Hemmick percebeu que não seria tão simples como imaginara, buscou o garoto, mas não o encontrou. Os minutos iam se passando e o desespero dele aumentava, gritou pelo garoto e nada. Entrou em um dos quartos e percebeu o “feijãozinho” desmaiado. Correu para pegá-lo, mas quando se deu conta estava ilhado, não havia nenhuma saída, o fogo o cercara por todos os lados. Hemmick percebeu seu destino, finalmente sairia daquela cidade, não conforme havia planejado e para onde iria não precisaria de nenhum centavo.




PATRÍCIA OLIVEIRA GARCÍA MODOLO - patriciamodolo@ig.com.br

Texto base de F. Scott Fitzgerald: “Dois por um centavo”


Um novo tempo, uma nova e inesperada ação. Hemmink contestou a situação e saiu da cidade. Apesar do falatório, das acusações escrupulosas acerca do "roubo" de 1 centavo, ele conhecia sua índole, não se prendeu aos dogmas morais e sem dar satisfações, tomou o trem que rumava para o norte. Era o seu norte, cidade de Atlanta, o início de uma longa batalha para realizações pessoais.
O nosso herói jamais retornou à cidade natal. Nem queria saber as condições em que ficaram seus afetos. Desculpar-se pelo ocorrido naquele banco, diante de Deems, um vice-presidentezinho asqueroso, vil e intolerante? Jamais!!! Tinha ainda a esperança de vê-lo derrotado, batendo à porta de sua próspera empresa para pedir um emprego. É. Nosso protagonista agora é um capitalista e carrega em si a ganância torpe dos afortunados. Até já se esqueceu de onde saiu. Aliás, para quê lembrar? Nem mesmo quando o seu sócio, o Sr. Abercrombie, outro que por acaso e nada no bolso fugiu da lama quente do Alabama.
Este é um episódio interessante. Enquanto ele, Hemmink, um homem responsável, que com recursos poupados duramente, saía da cidade como um bandido de baixa categoria, Abercrombie se instalava ao seu lado, no assento do trem, com a roupa do corpo e nenhum vintém, era um vagabundo sem expectativas de vida honesta, porém, o chamado para uma cidade maior e exatamente ter achado o centavo que faltava para a passagem, o fez seguir sem culpas ou delongas.
O dinheiro determina a vida das pessoas. A falta dele também. O excesso não permite enxergar o que ficou abaixo dos pés e a falta, do contrário, permite uma visão do que é necessário ter para sair da condição precária. E, no contexto capitalista, não importa os meios, mesmo que se abandone uma boa reputação ou lese aquele que está menos afortunado.




SARA BOIANOSQUE - boianosque@hotmail.com

Texto base de Scott Fitzgerald: “Dois por um centavo”


(as aspas simples ou duplas se referem a paráfrases ou citações do texto)

‘Sua mãe ainda estava viva e aquilo foi um golpe duro para ela. Tinha uma idéia, uma daquelas antiquadas idéias sulistas de que de certa forma ele devia permanecer na cidade e provar que era honesto.’ Mas Hemmick disse que não. Não! Que não devia nada e que a muito queria mesmo era sair daquela cidade. Que voltaria quando estivesse suficientemente bem para levá-la com ele. Sua mãe brigou, chorou e disse que iria morrer. Acho que quase morreu mesmo. Mas Hemmick era irredutível, aquele ‘não’ soava como uma idéia encravada em sua mente por outrem. Parecia-lhe de fato estranha aquela posição e não sabia exatamente por qual motivo se agarrava a ela. Desejo de liberdade? Vergonha dos conterrâneos? Desespero motivado pelo calor e pelo inferno do trabalho? Não tinha certeza. Talvez só a vontade de continuar correndo vários quarteirões em busca de uma melhor solução.
Foi embora na mesma semana. Não de cabeça erguida nem de cabeça baixa, ignorava tudo como se não fizesse parte daquele lugar. Não era como os outros e por isso partia. Rompia.
Chegou à casa de seu tio, desajeitado com as mudanças. Mas se adaptou rapidinho, assim como aprendeu logo o serviço. Tornou-se, então, o preferidinho da dona da casa, a mulher de seu tio. O casal não tinha filhos, e lhe agradava aquele rapazinho de vinte e poucos anos, um pouco inexperiente, claro, mas tão esforçado coitado, e por que não dizer também, bem afeiçoado.
Progrediu... Aprendeu tudo, até mesmo a como tomar emprestado do banco sem ninguém notar. Conheceu uma moça e decidiu casar-se. Esforçado o menino e também sortudo, como era bonita sua namorada. Após 10 anos, na ocasião do noivado foi buscar sua mãe naquela cidadezinha para que permanecesse, por fim, com ele em Nova Iorque.
‘Em todos estes anos sempre pensou; durante todos os anos construiu suas opiniões tão parecidas às opiniões da imprensa americana ou da nação articulada à força da paixão que ganhavam uma força quase divina. Havia um certo luxo no seu ato de pensar o qual sempre se permitia à ostentação. Quando um caso era colocado à sua frente, pensava imediata e compreensivelmente repetindo palavras sobre a família, o governo Deus, a vida, o dinheiro, o esforço e a sorte...’
Voltando à cidade recordou os anos de infância com repugnância. Não sabia como podia ter vivido tanto tempo lá. Um calor horroroso, aqueles ‘vadios parados de pé diante das lojas na rua Jackson, com seus chapéus de palha, aqueles rapazes de bolso pra fora e cinto pra trás”. Nova Iorque não. Nova Iorque era outra coisa. Lugar de pessoas distintas e não como aquelas pessoas mesquinhas e fofoqueiras com as quais ele tivera o desprazer de conviver. Em Nova Iorque estas coisas não acontecem.
Progrediu... O casamento foi lindo, o casal era lindo, a festa lindíssima e os convidados agradabilíssimos. Entre eles encontrou um velho amigo da velha cidade – coisas de sua mãe. Entre bajulações e gentilezas o homem comentou:
- Mas quem diria, hein! Hemmick?! O que seria de você naquela cidadezinha, se não tivesse vindo pro norte...?
- Sorte, meu caro! Com um pouquinho de esforço e de sorte todo mundo consegue. Nada mais que sorte...
*
“Você vai ter que aceitar como aceita Abercrombie, pelo que é e sempre será. Está é uma história dos anos mortos.”




LUCIANO FERREIRA ALVARES - alvares.luciano@ig.com.br

Texto base de O’ Henry: “O presente dos Reis Magos.”


De uma maneira bem criativa o conto retrata a formação de novos valores (diga-se perversos) que vêm se instalando em nossa sociedade, onde a procura da felicidade atinge ações que beiram ao absurdo “Quer comprar meu cabelo? Perguntou Della”.
Em um mundo de desafios permanentes à nossa dignidade e seriedade, a vida é vista como uma feira onde tudo pode ser comercializado, inclusive nosso cabelo.
Della e Jim são personagens e, ao mesmo tempo, vítimas de uma contradição criada por um sistema capitalista que desumaniza o ser e humaniza a mercadoria; os chamados seres humanos apegam-se às exterioridades e abandonam as interioridades; o visível impera sobre o inteligível “com aquela corrente no relógio, Jim não precisaria envergonhar-se de mostrar as horas fosse a quem fosse”.
A medíocre tarefa de presentear devido a sujeição a datas festivas criadas como o natal, tornou árduo o trabalho de sorrir de Della e Jim. Felicidade por bens materiais a qualquer preço, eis o novo princípio humano.
Mostra-se também através deste relato a ingenuidade dos personagens. Devido à tamanha generosidade de um com o outro (a excessiva preocupação em presentear).
Este ato generoso revela uma característica que funciona como um veneno mortal, visto que os afasta do realmente importa. A verdadeira felicidade para eles vai se tornado inatingível. Hoje o maior negócio humano é a criação de mazelas sociais e o dinheiro de tornou com unanimidade o “ser do mundo”. Della e Jim ajudam a confirmar tal (mal) prognóstico.
Há ausência e a presença do dinheiro em suas vidas provocou todo esse episódio crônico e irônico, em que, perante a realidade de uma condição social miserável ao qual estão sujeitos, desenvolvem meios inglórios de satisfazerem o outro e a si mesmo, mera ilusão! E o mundo contemporâneo está repleto de casos semelhantes a esse.
Ora, o que se vê muito facilmente por aí, principalmente em datas festivas, é um exército de pessoas correndo desesperadamente as lojas, de preferência aquelas do shopping centers. Este monumento urbano tornou-se um ponto estratégico de estímulo às vendas, uma autêntica referência capitalista, um símbolo da alienação no consumo.
Assim, pela inocente vontade de fazer o companheiro sorrir, Della e Jim desempenharam com eficácia o papel de indivíduos consumidores, deram tudo o que tinham para comprar, fizeram o capital circular, se frustraram, mas, gastaram. Adquirindo o que não necessitavam, se furtaram do que mais tinham de valor, usurparam a si mesmos.




MARTA PÉREZ RODRÍGUEZ - divaiestrella@yahoo.es

Texto basado en el cuento de D. H. Lawrence, titulado: "O vencedor do cavalinho de balanço."


"¿Cómo podría separarme de eso que oigo a través de mi pensamiento? ¿Cómo despojarme de la piel empapada en sentimiento? En ocasiones me sorprendo a mí mismo cargando la pesada losa del deseo insatisfecho. Sueño con el grifo roto que derrama agua sin parar... que no alcanzo a contener ni tan siquiera con mis manos. !Oh, riqueza desperdiciada! !Ay mi manantial usurpado! Todo ello en pos de momentos efímeros cuyo coste real sería imposible cifrar. Cuánta impotencia en busca del elixir mágico, del cuerno de la abundancia... y así pasan mis sueños, sin haber podido soñar."




CAROLINA MORALES - anaktoria2003@yahoo.com.br

Texto base de D. H. Lawrence: "O vencedor do cavalinho de balanço."
Atividade 1: situar a angústia de Paul, personagem do conto "O cavalinho de balanço" (D. H. Lawrence)
Enquanto primogênito e único filho de sexo masculino, Paul já estaria a priori sobrecarregado de uma pressão para exercer o papel de chefe de família, função essa mal contemplada pelo pai, que no conto aparece de forma nebulosa como indivíduo incapaz de prover economicamente sua família, egocêntrico e fútil. Em sua ânsia algo edipiana por obter o amor manifesto da mãe e, simultaneamente, arcar com as conseqüências da necessidade de sustentar os luxos ostensivos da mansão, Paul é consumido física e emocionalmente por um estresse que o desgasta até a morte.

Atividade 2: situar os âmbitos de certo/errado em relação ao dinheiro.
Creio que ao longo do curso tornou-se cada vez mais contundente a hipótese inviável de se pensar maniqueisticamente em relação ao dinheiro. Seja representado como força capaz de salvar o indivíduo de uma degradação moral e econômica, seja como força mesma que acarreta dita degradação, o dinheiro surge e se impõe como uma instância manipulada e manipuladora por e dos seres humanos.




MARIA GORETH ANDRADE DOS SANTOS DIAS -
mariagorethdias@hotmail.com

Texto base de D. H. Lawrence: “O vencedor do cavalinho de balanço.”


Quando abrimos os jornais e nos deparamos com o noticiário que no Nordeste, crianças trabalham em regime de escravidão, nas pedreiras ou no corte de sisal, e cana-de-açúcar.
Quando vemos na tv, meninos e meninas passam o dia, ora mendigando ora vendendo doces.
E que garotas que mal adolesceram, oferecem seus corpos como mercadoria barata. Contribuindo para o turismo sexual, compreendemos, quão grave é a situação do menor.
Deixam para trás uma infância perdida, são explorados desmedidamente, sempre com a conivência de seus responsáveis sob pretexto de ajudarem no sustento da família.
Fatos como esse são uma constante na história do mundo. O que será que falta a humanidade; amor, sensibilidade, piedade, que tipo de psicologia social ajudará a respeitar o próximo.




DANIELLE REZERA – daniellerezera@yahoo.com.br

Texto base de Jack London: “Um pedaço de bife.”

Tom vai à luta. Despede-se da esposa e lhe garante uma vitória. No caminho seu estômago dói. Lembra-se de todo esforço que fizera dia após dia; as dores que já tivera; dores que lhe valeram a vida; dores de que nada valeram.
E naquela noite, a dor da fome infringia a ele a dor da memória, da insignificância e da leviandade da vida.
Lutara tanto e hoje, aos quarenta anos, ainda doído das derrotas e das vitórias, era muito mais um perdedor do que um rei.
Aliás, rei fora por pouco. Muito pouco tempo. E esse título, ainda que honroso e curto, lhe custara as dores que sentia. Estas sim, ficaram.
Chegou ao ginásio e pode ver o público. Pode lembrar-se do tempo em que fora rei.
Vibrou por dentro e chorou por dentro.
Virou-se, desistiu. Voltou à memória e vira o quanto perdera.
Foi tamanha sua perda que se doía por um pedaço de bife. “E só um pedaço de bife não vale toda essa dor. Voltarei vitorioso e não doarei mais nenhum pedaço de bife de mim.”




NAIRA GOMES DOS SANTOS - nairags@usp.br

Texto base de Jack London: “Um pedaço de bife.”

Exercício: Reescrita com retorno de Tom.


Como andar faz naturalmente com que os pensamentos surjam ininterruptamente e com que venham de tão longe, de lugares que nem se pode prever, Tom vagou pelo tempo de sua juventude. Lembrou de sua energia, de quantos bifes tinha, das vitórias. Não soube explicar o porquê de toda nostalgia, nem porque não lhe saía da cabeça uma luta que travara com um homem de grande experiência, do qual ganhou e viu um choro infantil. De repente, todas as lembranças começaram a pesar. Tom percebeu que caminhava mais devagar, quase caminhando como quem tem tempo para gastar. Tom estava cansado, profundamente desprovido da energia do outro tempo. E o caminho continuava, impassível sob seus pés. Tom resfolegava com o delírio de suas memórias mescladas à força do vento que batia em seu peito. Tom sentiu seu coração doer, seu braço formigava e ameaçava imobilidade. Parou para descansar. Ficou ali por tempo indeterminado. Talvez já fosse o horário da luta. Às vezes, via sua esposa e as crianças tão perto e depois tudo sumia. Tom voltava a si. Quando se recuperou, quase por completo, tentou ficar em pé. Conseguiu e decidiu retornar. Retorno duplamente penoso. Como contar? Como ser derrotado sem lutar? Era a primeira vez que se decepcionava com sua força. Voltou sem ter consciência dos passos que dava. Entrou apavorado. Sua mulher o viu e permaneceu parada por instante. Ela o beijou mais uma vez, com a delicadeza de um anjo, e foi dormir. Ele também dormiu e naquela noite sonhou com tantos bifes, tantas jovens e prêmios… Acordou com a batida na porta. Os apostadores dobraram o valor. E agora havia grande adiantamento. Tom olhou para a mulher na cozinha. Estava orgulhoso por ter os homens na sua casa, não podia negar todo aquele dinheiro. Era comida para todos por uma semana. Os homens suavam, já tinham dado a palavra. Tom refletia muito e rapidamente as imagens do bife, do caminho, da juventude, do homem derrotado chorando lhe vinham à mente sem que tivesse tempo para articular alguma resposta. Os homens falavam de luxos, de carro para o transporte e treino por três dias. Tom ouvia pouco e pensava mais. Não conseguia sair do sonho, talvez porque fora surpreendido enquanto dormia. Foi quando decidiu beber um pouco de água para organizar as idéias. Pediu licença, foi até a cozinha, encheu o copo e, a cada gole, seu olhar se deparava com aquela situação de chegada. Nada nos armários que já não tinham porta, nada para fazer, nada para comer. O resto de farinha que coloria de leve o pote de plástico sujo. Tom bateu o copo como quem acaba de tomar uma dose. Olhou para a família uma última vez.




SOLANGE PEIXE PINHEIRO DE CARVALHO - solange.pinheiro@ig.com.br
Texto base de Jack London: “Um pedaço de carne”

Final alternativo

Tom parou antes de atravessar a rua. Pessoas andavam de um lado para outro, barulho de conversas, de risadas, e de repente ele começou a pensar: o que vou fazer lá? Destreinado, velho, com fome, sem forças; estava enganando a quem? a si mesmo? Um velho sem forças e um jovem arrogante, bem nutrido, confiante, quem poderia vencer? E ele, Tom, não faria naquele estádio o papel de palhaço, apanhando de um novato para que o respeitável público se divertisse?
Deu meia volta e começou a refazer o caminho para casa, ainda mais lentamente do que estava andando enquanto ia para o estádio. E a cada passo ele ouvia o eco das palavras pronunciadas – por quem? “derrotado... derrotado... velho... acabado...” Compreendeu então que ele nunca havia significado nada para ninguém; quando estava no auge da fama as pessoas iam vê-lo lutar, não por ele, mas sim pelo espetáculo em si, pelo prazer de ver o sangue correr, de ver alguém ser derrotado, de ver a mesma cena se repetindo vez após vez – a derrota de um, a vitória de outro, mas não importava quem ganhasse ou vencesse, e sim, que o público se divertisse. Ah, e como eles se divertiam.
Parou de novo, lembrando-se do tempo em que o dinheiro fácil fluía de suas mãos, antes que os nós de seus dedos se acabassem na sucessão de golpes nos adversários. Não adiantava chorar o passado, e não resolveria nada lutar no presente, pois o futuro já lhe parecia decidido – velhice, pobreza e dois filhos sem opções na vida, vagando pelas ruas. Antes de enfrentar as perguntas da esposa e os olhares críticos dos credores e dos vizinhos, ele tinha de achar uma saída. E continuou a andar, sem rumo, sem se preocupar em voltar para casa, pois aqueles a quem a sociedade rotula como perdedores não se sentem em casa em lugar nenhum.




VITOR AHAGON - vitor.ahagon@gmail.com

A presença do dinheiro, por uma perspectiva de Karl Marx, na literatura.

Universal, mediador, qualificador, inversor, são algumas das “qualidades” das quais Marx atribui ao dinheiro no ultimo capítulo do livro “Manuscritos econômico-filosóficos” escrito em 1844, do qual somente é publicado em 1932, influenciando toda a esquerda marxista e intelectuais marxianos do planeta, sendo que este escrito é a primeira critica, de duplo caráter, econômico e filosófico, a Adam Smith e David Ricardo que Marx promove.
As “qualidades” expostas acima se entrelaçam e se relacionam de tal forma que promove a inversão de sensações e sentimentos humanos. Marx para demonstrar e fundamentar sua tese utiliza-se de “Fausto” de Goethe e “Timão de Atenas” de Shakespeare. Para demonstrar a relação de mediação e como o dinheiro se torna fonte de capacitação de qualidades que se não possui Marx parte de Goethe, já para demonstrar como que o dinheiro promove a inversão utiliza-se de Shakespeare, mas as analises que Marx elaborou em relação ao dinheiro também estão expostas em outras obras de autores literários.
No conto de F.Scott Fitzgerald “Dois por um centavo”, escrito em 1922, o autor nos conta a historia de Abercrombie e Hemmick, e como um centavo alterou toda a vida desses dois homens.
Ambos moravam na mesma cidade quando jovens, lugar ao sul dos EUA. Abercrombie começa contando sua historia e de como estava angustiado em querer sair daquela cidade e poder se encaminhar para o norte, na época guardava algum dinheiro e trabalhava como mensageiro de um banco. Por conta do roubo do banco por um funcionário a situação complicou para todos que lá trabalhavam, pois a desconfiança aumentava cada vez mais. Certa vez Abercrombie foi cobrar uma promissória e no trajeto perde uma moeda de um centavo, fica louca na procura dessa moeda, encontra-se com o vice-presidente do banco na rua e traz desconfiança pelas suas ações espalhafatosas e estabanadas, logo depois é pego, tenta se explicar, porém em vão, depois disso sua reputação fica mal vista pela cidade impossibilitando-o, reforçado pelas chantagens de sua mãe, sua partida da cidade, até que sua honra fosse recuperada, o que durou 10 anos.
A historia de Hemmick nos diz que também desejava sair da cidade, pois era tido como um “feijãozinho” (1), porém não tinha dinheiro suficiente para comprar a passagem, lhe faltava um centavo, do qual viu brilhando no chão, o mesmo lugar onde Abercrombie tinha perdido o seu centavo, Hemmick pegou o centavo, partiu para o norte e tornou-se um homem de negócios bem sucedido (2).
Um centavo tornou-se o signo da ascensão de um e a derrocada de outro, o dinheiro então tem o poder de decidir o futuro, o destino dos homens, aqueles que possuem a “graça” do dinheiro irão prosperar.
“A universalidade de seu atributo é a onipotência de seu ser...” (3).
O dinheiro então está presente em qualquer lugar do planeta e que também tem o “poder” de direcionar a vida dos homens, onipresença e onipotência, o dinheiro torna-se Deus e ao tornar-se Deus o dinheiro nos possibilita realizar “milagres”. “O dinheiro, na medida em que possui o atributo de tudo comprar...é, portanto, o objeto enquanto possessão eminente” (4) nos possibilitando, milagrosamente, a obtenção de qualidades das quais não nos pertence enquanto indivíduos, “o que eu sou e consigo não é determinado de modo algum, portanto, pela minha individualidade” (5).
No conto de Nikolai Gogol, “O Capote”, o protagonista da historia Akaki Akakievitch, encontra-se numa situação que terá de comprar um capote novo, porém está sem dinheiro. Seu “capote” antigo estava surrado, velho e todo remendado, impossibilitando o concerto do mesmo, sendo que se parecia mais com uma capa, o que lhe proporcionava piadas, gozações, humilhações e todos os tipos de rebaixamento, isto quando notavam sua presença.
Akaki então tem de comprar um capote novo, economiza daqui e dali, retira suas parcas regalias e consegue o dinheiro do capote, ao comprá-lo tudo muda em sua vida, não era mais tido como piada, mas era recebido com elogios, ninguém mais o humilhava, pois sua aparência era altiva, era convidado para festas, enfim, tornou-se visível (6).
Nesse conto de Gogol notamos que na compra de um capote novo Akaki carrega nos ombros então todas as qualidades das quais o capote representa, promovendo a inversão de qualidades. O ser invisível que era Akaki, passa a ser visível pelo capote, “o dinheiro é, portanto, a inversão universal das individualidades, que ele converte no seu contrário e que acrescenta aos seus atributos atributos contraditórios” (7), “ele é a confraternização das impossibilidades, obriga os contraditórios a se beijarem” (8).


1. Vagabundo.
2. Fitzgerald, F.Scott. Dois por um centavo. Muggiati, Roberto (org.). A selva do Dinheiro. Ed.Record, p 69-84.
3. Marx, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Ed Boitempo.p 157.
4. Idem.
5. Ibdem, p.159.
6. Gogol, Nikolai, O capote. Muggiati, Roberto (org.). A selva do Dinheiro. Ed.Record, p. 205-234.
7. Marx, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Ed. Boitempo.p 160.
8. Idem.p 161.

Bibliografia:

• MUGGIATI, Roberto (org.). A selva do Dinheiro. Ed.Record.
• MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Ed. Boitempo.



Dialético



NÃO À DITADURA DA MÍDIA!


Repare nos valores defendidos por Israel:

a) Holocausto no dos outros é refresco;

b) Não aos campos de concentração, mas a favor do extermínio imediato dos palestinos.


A discrepância entre os últimos números do IBOPE e os do DATAFOLHA para as eleições municipais de São Paulo, em especial a respeito do 2º turno, mostra que a estatística (ciência) pode ser objeto de intensa manipulação de dados. Quem está distorcendo para proteger seu "querdinho" tem um problema com seu artifício: a data de validade, pois as eleições estão próximas.



Os moradores de São Bernardo do Campo conhecem muito bem a administração do prefeito DIB: Deficiência Integral Bruta.



A facilidade com que os tubarões obtêm milhões/bilhões em malas, bolsos e Bolsas é emblemático da corrupção intrínseca às instituições. A contrapartida de tudo isso é a miséria produzida por esses parasitas sociais.



Questão de Princípios de "homens públicos".
Se há bens: "Habeas corpus".
Senão: "Teje preso!"



Plebiscito sobre o "impeachment" do presidente do STF, sr. Gilmar Mendes.

Ele autorizou o "habeas corpus" para os srs. Daniel Dantas, Celso Pitta, Naji Nahas e outros, presos pela Polícia Federal na Operação Satiagraha.

Sim, ele não tem condições de presidir o STF.

Não, ele tem condições de presidir o STF.

VOTE E PARTICIPE!

http://www.orkut.com.br/Community.aspx?cmm=61333697

No futebol o impedimento anula o lance.
Na política, é expulsão.
FORA, Gilmar Mendes!



A pergunta que não quer calar: Daniel Dantas e Cia. foram soltos por que têm amigos supremos ou por que têm supremos amigos?



A blindagem da mídia para proteger Alckmin não vai conseguir estancar sua queda. Ele ainda vai cair tanto que, logo, logo, o Kassab irá ultrapassá-lo: não por ter subido, mas porque o outro está em queda livre. E não adianta fazer bico.
PS. Chega de CENSURA! Publiquem as manifestações contrárias aos tucanos, também.



Coitado do Alckmin, ele é masoquista. Se não, vejamos: repudiado pelo




Serra, quer apoio do Lula e vai fazer campanha com vereadores kassabistas. Patético!




O monopólio da mídia privada tentou impor ao povo brasileiro a eleição do candidato da direita, Geraldo, do PSDB. Mas a população, compreendendo o que estava em jogo, deu a Lula apoio crítico para barrar o retorno das privatizações lesivas ao interesse nacional. Petrobrás, Banco do Brasil e outras são do povo brasileiro, e não dos bicudos engomadinhos. É verdade que há muito a se fazer. Porém não se deve perder de vista o recuo que representaria a vitória do candidato da Opus Dei (Alckmin). Portanto, vamos pressionar o governo para atuar mais decididamente em prol das classes exploradas.






2009


O ano de O RATO PENSADOR ,

de A LENTE,

de A GUERRA
e de O JOGADOR



Agenor Bevilacqua Sobrinho é professor de Filosofia e de Sociologia da UniABC. Graduado em Filosofia pela USP (Universidade de São Paulo) e Mestre em Artes Visuais pela UNESP (Universidade Estadual Paulista).





O Rato Pensador

de Agenor Bevilacqua Sobrinho

Resumo

"Um rato bebe o leite de um menino pobre. Diante do choro da criança e de sua mãe, o rato, com remorsos, resolve encontrar um meio para conseguir mais leite. Será fácil? O rato precisará superar muitos obstáculos para trazer a solução."

Companhia Cultural Fagulha

"As grandes fogueiras nascem de fagulhas."

Rua Senador Mathias Olímpio de Mello, 165 - Vila Damásio
CEP: 09780-390 - São Bernardo do Campo - SP



INFORMAÇÕES E PEDIDOS

Tel.: (0xx11 ) 3907-1599

e-mail: ciafagulha@yahoo.com.br



A Lente

de Agenor Bevilacqua Sobrinho

Resumo

"Habitante de Lente, Paula, jovem desempregada, começa a entender os mecanismos da desigualdade social e da corrupção enquanto procura emprego."






O jogador


de Agenor Bevilacqua Sobrinho

Resumo

"A pesquisa é sobre um sujeito engolfado em partidas de carteados e loterias que supostamente permitirão a ele evadir-se de suas dificuldades financeiras. Sem se atentar para outras modalidades de existência, naufraga sua vida na vã esperança do bilhete premiado e/ou acumulado."








RESENHA

SOBRE “O RATO PENSADOR”, de Agenor Bevilacqua Sobrinho. Companhia Cultural Fagulha, 2002, Coleção Teatro na Escola.

Maria Sílvia Betti
Professora da FFLCH/USP Universidade de São Paulo



"O RATO PENSADOR" e seu percurso de descobertas e reflexões.

"O Rato Pensador", fábula teatralizada por Agenor Bevilacqua Sobrinho, é a recriação de uma narrativa popular da Sardegna relatada pelo pensador Antonio Gramsci (1891-1937) em uma das cartas que escreveu do cárcere a Giulia, sua mulher. Desenvolvendo o enredo a partir da narrativa evocada por Gramsci, Agenor presta homenagem ao filósofo ao mesmo tempo em que traz ao público brasileiro a oportuna reflexão acerca da responsabilidade social presente na fábula sarda.

O vasto material epistolar deixado por Antonio Gramsci é rico em referências à importância do ato de narrar, assim como em reminiscências de infância impregnadas de menções a historietas correntes no contexto sardo do início do século.

Sendo a Sardegna contemporânea a Gramsci uma região pobre e marcada por problemas sócio-econômicos, o paralelo estabelecido por Agenor com o contexto brasileiro do Nordeste e de regiões de baixa renda torna-se extremamente significativo. Esse é um dos aspectos centrais da fábula recriada e de sua encenação.

Um rato toma o leite que uma mulher, pobre e desempregada, estava reservando para o filho. O choro do menino e a frustração da mãe enchem o rato de remorsos. Disposto a reparar o erro, ele tenta proporcionar ao garoto o leite de que o havia privado, e acaba chegando a uma série de constatações que transformam seu olhar a respeito das relações sociais e do impacto delas sobre a natureza.

No percurso que assim se inicia, o rato é acompanhado por duas pequenas palhacinhas com as quais dialoga e com as quais comenta as dificuldades que encontra ao longo do caminho.

Um enredo simples e desenvolvido a partir de uma situação aparentemente desprovida de aventura leva a surpreendentes desdobramentos: ao contrário do que julga o rato, sua boa vontade individual não é suficiente para sanar o problema, cujas raízes são mais profundas do que ele supunha: a cabra, desnutrida, não tem pastagens para se alimentar, e portanto não pode lhe dar o leite desejado; o capim seco que cresce no campo devastado precisa de água que possa revitalizá-lo a fim de alimentar a cabra e dar-lhe forças para produzir o leite; a fonte, destruída pela guerra, deixa escorrer e perder-se a água que poderia irrigar o campo e fazer crescer o capim; o pedreiro, que não dispõe de pedras, não pode consertar a fonte, e a montanha onde se encontram as pedras sofreu o desmatamento e a erosão resultantes da ação dos especuladores, cujo interesse único é o lucro.

Toda uma conjuntura ampla e complexa vai sendo pouco a pouco desvendada pelo ratinho pensante. Em sua trajetória não faltam os atropelos motivados por encontros com representantes do saber acadêmico (personificado no autoritário Professor Atrapalhão), do tempo expropriado pelo mundo competitivo do trabalho (simbolizado na corrida desenfreada do personagem Atrasildo em sua maratona de compromissos e nas dezenas de relógios que leva consigo) e da incapacidade de transformação (associada ao personagem Apavorado, que nutre um medo supersticioso e apocalíptico de tudo à sua volta).

Ironicamente, a chave para lidar com esse conjunto intrincado de situações acaba sendo fornecida pela Bruxa, figura a quem o rato havia relutado em recorrer, a despeito dos conselhos recorrentes das palhacinhas. A imagem de uma feiticeira perversa e cheia de artimanhas cai por terra quando, vencendo o preconceito, o rato se dispõe a ouvi-la, e descobre nela uma mulher do povo, cuja sensatez e sensibilidade serão decisivas para levá-lo a encontrar a melhor forma de agir diante das situações que se apresentam.

Ao invés de mágicas e sortilégios, o rato encontra nas sugestões da mulher uma perspectiva de ação sobre a realidade à sua volta. As palavras dela apontam para um processo longo, e não para uma solução imediata, e a transformação produzida virá apenas com o tempo: para que o menino tenha o leite, é preciso que a consciência interfira na sociedade e na natureza. A imagem do dominó, sugestivamente presente na brincadeira das crianças no início do espetáculo, funciona como metáfora de toda a cadeia causal de circunstâncias com as quais o rato irá se defrontar e que irão desencadear o seu processo de reflexão e aprendizado.

A fábula de Agenor incorpora à matéria-prima da narrativa de Gramsci um importante elemento de reforço de seu sentido crítico, que é a presença constante do ato de narrar: o rato relata os acontecimentos às duas palhacinhas que o acompanham, e, ao fazê-lo, constrói um olhar sobre eles, permitindo que sejam postos em discussão.

As meninas, que vêem de fora a seqüência dos fatos, interagem e opinam; o rato, colocado diante de suas interlocutoras, critica-as na mesma medida em que compartilha com elas toda a sua aflição.
Também as figuras de Atrapalhão, Atrasildo e Apavorado funcionam como elementos emblemáticos inseridos por Agenor na estrutura da fábula sarda, e permitem uma referência crítica ao mundo da escola, do trabalho e das relações sociais, respectivamente.

A questão ecológica, que perpassa todo o texto, é indissociável da existência da guerra e da exploração da natureza e do trabalho, aspectos que conferem ao espetáculo uma grande riqueza de possibilidades sob o ponto de vista pedagógico.

Gramsci, aprisionado em 1927 e morto dez anos depois, passou sua última década de vida entre o cárcere e as clínicas de saúde, sempre em regime de liberdade vigiada. Na época de sua prisão, seu filho mais velho, Delio, a quem ele não tornaria a ver após ser preso, tinha então três anos de idade, e o mais novo, Giuliano, que ele só conheceu por fotos e cartas, ainda não era nascido.

O desejo de transmitir a eles afeto e experiência foi avidamente canalizado por Gramsci através das cartas, e encontrou em lembranças de infância e em narrativas folclóricas um importante veículo de comunicação com os meninos. Vem daí o cuidado didático e afetuoso com que o filósofo instrui Giulia a recontar a fábula aos garotos: "gostaria de contar agora a Delio uma história da minha terra que me parece interessante. Vou resumi-la para você e você a desenvolverá para ele e para Giuliano".

O resumo feito pelo filósofo não edulcora os elementos originais da narrativa popular, como acontece, via de regra, em narrativas contemporâneas de contos infantis tradicionais. Gramsci preocupa-se em transmitir a Giulia o arcabouço de fatos de forma objetiva e despojada. Isso comprova a eficácia do material narrativo contido no enredo da fábula, que se apresenta rica de elementos a serem, tal como ele recomendou à esposa, desenvolvidos no relato aos meninos.

Ao contrário do que ocorre nos contos de fadas convencionais e nas histórias de aventuras, a riqueza da fábula não está contida nas ações praticadas, mas no conjunto de relações que elas desvelam e na presença implícita daquilo a que Gramsci se refere, em sua carta, como "um verdadeiro plano próprio de trabalho, orgânico e adaptado a um país arruinado pelo desmatamento". Nada mais adequado, portanto, do que o título "O Rato Pensador", referência a um itinerário de descobertas que levam à construção de um pensamento crítico.

A concepção essencial da fábula recriada por Agenor se faz presente na concretização de um preceito essencial que remete não apenas ao pensamento de Gramsci mas também ao do dramaturgo e pensador teatral Bertolt Brecht (1898-1956): as coisas e as conexões mais triviais devem ser examinadas atentamente e discutidas, pois em sua forma e nas relações que constroem existem aspectos importantes a serem conhecidos e dominados. "Em tempo de desordem sangrenta," diz Brecht, "de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." Esse é, justamente, o espírito do trabalho desenvolvido por Agenor Bevilacqua Sobrinho em seu espetáculo "O Rato Pensador".



Maria Sílvia Betti
Professora da FFLCH/USP – Universidade de São Paulo
Membro do Conselho Artístico do Folias d’Arte


O Rato Pensador. Ed. Companhia Cultural Fagulha
R$ 35,00 (R$ 28,00 para professores e estudantes)
Tel.: (0xx11) 3907-1599
e-mail: ciafagulha@yahoo.com.br



RESENHA

SOBRE “A LENTE”, de Agenor Bevilacqua Sobrinho. Companhia Cultural Fagulha, Coleção Teatro na Escola.

Maria Sílvia Betti
Professora da FFLCH/USP Universidade de São Paulo


A Lente é um trabalho que remete ao conceito brechtiano de ação, entendido não apenas como o produto de um pensamento criador politicamente empenhado, mas como proposta de um olhar crítico desejoso de intervir na sociedade à sua volta.

A peça utiliza a forma épica, coerente com a natureza das questões coletivas de que trata: seu foco crítico são os mecanismos de controle social e ideológico direta ou indiretamente ligados à retórica do Estado na presente fase do capitalismo no contexto nacional.

As personagens são não apenas os que habitam os bolsões de pobreza da megalópole, mas também aqueles que, em plena esfera da representação política nacional, aplicam seus golpes. Fazendo uso dos recursos da sátira e da paródia, o espetáculo expõe os malabarismos de raciocínio que embasam argumentos destinados a "justificar" o uso privado de dinheiro público, a manipulação de cargos e interesses, a revogação dos direitos trabalhistas e a implementação de projetos destinados a multiplicar os vencimentos de seus próprios proponentes.

O texto caracteriza-se como um trabalho de natureza não apenas crítica e reflexiva, mas ao mesmo tempo fortemente propositiva e disposta a prosseguir no caminho de um teatro abertamente político como perspectiva de reflexão e de construção do pensamento.


Maria Sílvia Betti
Professora da FFLCH/USP – Universidade de São Paulo
Membro do Conselho Artístico do Folias d’Arte


A Lente. No prelo.
Tel.: (0xx11) 3907-1599
e-mail: ciafagulha@yahoo.com.br





TEXTOS




A luz. Conto.

A rebeldia enlatada. Artigo.

Campanha pró-canonização. Livre.

Carneiros. Poema.

Carta ao pai. Livre.

Ciro "Collor" Gomes. Artigo.

Decálogo de George Bush. Sátira.

Desempregado. Poema.

Ditador. Ensaio.

Efeito lingüeta. Livre.

Estado policial tucano. Artigo.

João. Rock aberto. Poema.

Neoliberalismo. Poema.

Nostalgia. Livre.

O apagão moral e os "fernandetes orgânicos". Ensaio.

O progresso como razão e violência. Poema.

O rei e o reinado. Conto.

O tempo. Poema.

Que queres. Poema.

O fabricante de desemprego. Livre.

"Oitários". Livre.

O raio na torre. Poema.

Previdência privada e imprevidência governamental. Artigo.

Repertório do Dicionário George Bush e Falcões para leigos. Sátira.



E muitos outros...



COLABORADORES

Anônimos - Rei Midas X Rei Mierdas

Bertolt Brecht - Coletânea

Carlos Heitor Cony - Caricatura de Presidente

Charlie Chaplin - Preciso de alguém

Pablo Neruda - Poemas de amor

Paralamas do Sucesso - Luiz Inácio

Violeta Parra - La Carta


“Duas pernas”

Duas pernas caminhavam sem parar. Uma disse a outra: "Por que você está sempre à frente?". A outra, mais observadora, respondeu: "É impressão sua. Quando imagino estar à frente, vejo que você, com muita categoria, passa por mim e vai adiante. O que faço é procurar dar-lhe a oportunidade de perceber que isso é o que ocorre e não o inverso."



“Grosseria anda de chinelas. As Havaianas baixam o nível.”


Selton Melo, ator famoso de novela global das 20 horas, entra numa loja de departamentos. Na seção de calçados pede ao vendedor as chinelas Havaianas. O atendente não possui em seu estoque a marca, esgotada pela demanda crescente de clientes que fazem questão de levá-la. O ator diz que também faz questão. O rapaz oferece outra. A celebridade, um pouco contrariada, aceita a sugestão e põe em sua mochila o par de chinelos e se dirige para a saída sem pagar, no que é gentilmente advertido pelo vendedor.

O ator retira de sua mochila uma cueca amassada e arremessa-a de maneira brusca contra o vendedor. Encabulado, o jovem diz: “Mas isso aqui não é dinheiro.” Ao que o ator presunçoso retruca que não era preciso pagar pois as chinelas também não eram Havaianas. Mas o gesto violento não se encerra aí. O ator completa sua “mise-en-scène ” jogando na direção do vendedor o par de chinelos da outra marca. A locução adverte: “Não se deixe enganar, tem que ser Havaianas!”

Como se depreende, a juventude está recebendo regras de boas maneiras.

O recurso do humor pretende aproximar a marca de um público jovem e ao mesmo tempo é trabalhado para amenizar o duro golpe desferido contra os demais fabricantes. Porém, examinemos mais de perto este caso. Simbolicamente, atirar uma cueca amassada e, possivelmente, suja, remete, também, às excreções; ao excremento. Portanto, as marcas concorrentes são chamadas, indistintamente, de “essa merda”.

Curioso. Não há meias-palavras. Tudo é dito de forma seca, firme, “jovial”. Caso o jovem se identifique com o objetivo, “bingo!”. E senão ocorrer o pretendido? Qual é a distância entre o direito de pleitear maior fatia de consumidores e o fato de pronunciar impropérios para consegui-los? Quais são os limites da agressividade?

Não se respeitam os padrões de decência que são comumente encontrados entre aqueles que a publicidade poderá atingir (artigo 22). O artigo 26 determina que “os anúncios não devem conter nada que possa conduzir à violência”. A publicidade comparativa pode ser feita (artigo 32); no caso estudado, no entanto, o confronto se dá pelo anonimato dos concorrentes, que são identificados pejorativamente.


Infrações ao Código de Ética do Conar: Artigos 2º, 5º, 6º, 15, 19, 20, 22, 23, 24, 26, 34 e 37.






Os que “ficam” são troféus. A Coca-cola assume as relações descartáveis como identidade dos jovens e de sua própria existência.


Locação: praia. Personagens: casal de adolescentes.

Conhecidos há apenas algumas horas, dois jovens estão sentados na praia. Ele diz ter adorado conhecê-la. Ela exprime a mesma idéia; e nota que o tempo passou “voando”. O garoto segura uma lata de refrigerante da Coca-cola. Um carro toca a buzina e chama o menino; o rapaz levanta-se e caminha em direção ao automóvel. A garota pede um gole de Coca-cola, mas o menino alega que já havia acabado. Mesmo assim, ela pede a latinha para ser guardada como recordação do encontro dos dois.

Ao chegar em casa, a adolescente acrescenta o “troféu” à sua extensa fileira de latinhas na prateleira de seu quarto. Por hora, é a última e mais nova aquisição.

Então aparece a legenda: “Ficar, essa é a real... Coca-cola.”

Acompanha-se por instantes não uma “pessoa”. Mas uma multidão de seres convertidos em caça, em prêmio. Interessante a demagogia que se faz com a imaturidade dos jovens: valores fugidios, descartáveis e frívolos são enaltecidos e vangloriados como sinal de força e perspicácia. O desfile fátuo pretende assumir ares “épicos”. A promiscuidade da jovem é travestida como ato exemplar. Pena que não se tenha o mesmo respeito pelas “profissionais” do ramo...

Ao encorajar e idealizar tais atitudes não se procura nada além de criar vínculo de identidade com o público-alvo desta faixa etária. Os espertos publicitários acorrentam em seu querer os pretensos “espertos” jovens, que se aprisionam ao ritmo daqueles que “deitam falação” para envolvê-los.

Essa empresa de refrigerantes aprecia deixar de lado a Ética. Observamos que o artigo 37, mormente a letra F, do Código de Ética é retumbantemente deixado de lado. Pois o anúncio desconsidera os “cuidados especiais que evitem distorções psicológicas nos modelos e impeçam a promoção de comportamentos socialmente condenáveis”. Mostrar como paradigma algo que depende da falta de clareza de adolescentes, deixa de ser “real” e passa a ser forma de induzir as crianças da mesma idade em tais atos, tidos como “naturais”, ou seja, desguarnecidos de sua roupagem cultural e das imposições de interesses mercantis nada desprezíveis.

Infrações ao Código de Ética do Conar: Artigos 1º, 5º, 6º, 15, 19, 20, 22, 23, 34 e 37.





Lipoaspiração cerebral. Limpador multiuso “Veja” reforça preconceito.

O cenário é uma cozinha. Os objetos próprios a ela: o fogão, a coifa, a geladeira etc. estão presentes. A tarefa da personagem é limpar a cozinha, excessivamente “gordurosa”. A representação da sujeira é expressa por meio de recursos de computação gráfica, que “humanizam” esses objetos e, ao mesmo tempo, os distorcem. O fogão, por exemplo, aparece com imensos quadris; a coifa, transpira gordura por todos os seus poros; a geladeira, tem uma barriga imensa, obesa.

Insatisfeitos, seus redatores acrescentam o apelo (ou será “apelação”?): “Faça uma lipoaspiração na sua cozinha.”

Sabemos que a vaidade feminina é instada de forma reiterada com a mensagem autoritária de que se deve ter o “corpo perfeito”, quer dizer, seguir o padrão cultural imposto por aqueles que têm o poder de determinar o que é o “belo”, o “melhor” etc.

Associar a limpeza da cozinha (de seus aparelhos domésticos) à “sujeira” de quem tem peso fora do modelo imposto, é agressão que fere profundamente a vaidade das mulheres. O constrangimento social é multiplicado, pois se aduz que são “sujas” as que não fazem a lipoaspiração “redentora”.



Infrações ao Código de Ética do Conar:. Artigos 1º, 5º, 6º, 15, 19, 20, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 34 e 37.





Rebeldia enlatada


No afã de manipular os desejos das pessoas, a publicidade não mede esforços e também não observa, muitas vezes, os mínimos preceitos éticos contidos nos artigos do Código de Ética do CONAR – Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (www.conar.org.br).

Em seu artigo 37º, o CONAR reconhece a especificidade do anúncio dirigido à criança e ao jovem, portadores de características psicológicas próprias. Para não haver abusos, o item b deste artigo assevera o respeito a ser demonstrado pela ingenuidade e credulidade, pela inexperiência e sentimento de lealdade dos menores. Não sendo admitida a ofensa ao menor (item c) e, muito menos, a possibilidade de inferiorizá-lo caso ele não consuma o produto oferecido (item d).

Caso o público-alvo (“target”) seja o jovem, os profissionais da área procuram se assenhorear do universo simbólico da juventude para forjar um processo de identificação entre o produto e seu consumidor potencial. Considerando que “as repercussões sociais da atividade publicitária reclamam a espontânea adoção de normas éticas”, convém ficarmos atentos aos que ignoram ou fazem pouco caso da legislação do setor.

Vejamos, a propósito, o exemplo recente da propaganda da Coca-cola. Chorão, vocalista da banda Charlie Brown Jr., interrompe um show e humilha um indivíduo por ele não estar com a garrafinha colecionável, destoando dos outros que exibem eufóricos o “precioso objeto”. Na cena seguinte, o rapaz já está portando o “talismã”, e, por isso, recebe o abraço de Chorão, seu ídolo.

Não é casual a citação. Ela é paradigmática de um procedimento renitente das empresas que divulgam marcas, produtos e serviços: estigmatizar os que não se padronizam; marginalizar aqueles que refletem.

Rebeldia e transgressão como marketing não passam de elementos inseridos nos códigos do mercado. Promovem o preconceito, a discriminação, a apatia e o consumo acrítico.

A inconformidade, característica inerente da juventude, é desconteudizada, esvaziada de sentido. Restando a obediência ao “rebelde”, travestido de porta-voz de interesses comerciais evidentes.

O discurso publicitário é preenchido por frases de efeito que sintetizam o que as pesquisas colheram antecipadamente. O jovem ouve à tarde o que as entrevistas coletaram pela manhã de sua boca. Promessas de entrega de desejos embalados, a demagogia é reposta constantemente com a insinuação inscrita na tarja: “nova embalagem”, “lançamento” etc.

Portanto, deve-se evitar “distorções psicológicas nos modelos e impedir a promoção de comportamentos socialmente condenáveis” (item f, do mesmo artigo 37º), como o castigo exemplar contido na referida peça publicitária do refrigerante, na qual o jovem vê tolhida sua espontaneidade para autoritariamente ser enquadrado como o suposto “exclusivo portador” da garrafinha da “felicidade sintética”. E convertido, ao final, ao credo da despersonalização estilizada, escapando do temido sentimento do jovem: ser excluído da sua “tribo”.

Temos a inversão do Zé Ninguém (1948) de Wilhelm Reich. Os verdadeiros Zés Ninguéns são transformados em seres notáveis, e o sujeito que procura preservar alguma autenticidade é catapultado para a estupidez. Para massagear o ego de seus consumidores, a publicidade banaliza e opera cirurgias mentais de um admirável mundo novo.




O Decálogo

ou

Os dez Mandamentos da Lei de George Bush.



1º Amar os EUA e suas empresas sobre todas as coisas.

2º Não respeitar os outros povos.

3º Bombardear nos dias santificados e em todos os outros dias também.

4º Desonrar pai e mãe dos outros.

5º Matar quem atrapalhar os negócios imperiais.

6º Acabar com a castidade alheia.

7º Roubar sempre o petróleo e outras riquezas alheias.

8º Falsear testemunhos para a glória dos EUA.

9º Cobiçar a mulher do próximo e seus tesouros.

10º Cobiçar os bens alheios, principalmente os valiosos,como, por exemplo, o petróleo, o ouro etc.



Repertório do Dicionário George Bush e falcões, para leigos


CARIDADE-ÓLEO - Oferta benemérita ianque para dispensar os outros do trabalho massacrante de extrair o petróleo da terra e precisar armazená-lo em barris, ocupando espaço desnecessário no país. O EUA-DUTO é oferecido a preços módicos (algumas centenas de bilhões) para transporte sem intermediação. Afinal, o melhor é evitar atravessadores.

CULINÁRIA - Alheióleo.

EUA-MÚNDI - Plano estratégico do império para apossar-se do mundo e espalhar o progresso.


PRÁTICAS ESPORTIVAS (OU MELHOR, EXTORSIVAS)

Abocanhóleo
Aceitóleo
Acolheróleo
Acometeróleo
Agadanhóleo
Agressóleo
Ajuntóleo
Ameaçóleo
Apanhóleo
Apoderar-se-óleo
Apreenderóleo
Apresamentóleo
Apresaróleo
Aprisionóleo
Aproprióleo
Arrancóleo
Arrebataróleo
Arrestóleo
Aspiróleo
Assaltanteóleo
Assaltóleo
Assassinatóleo
Assenhorear-se-óleo
Assolaróleo
Atacaróleo
Ataqueóleo
Atribuir-se-óleo
Bandidóleo
Bater a carteiróleo
Batidóleo
Bifóleo
Bombóleo
Bushad'óleo
Capturóleo
Cheióleo
Cobertóleo
Colheróleo
Confiscóleo
Conquistóleo
Consumóleo
Contrabandóleo
Desapropriar-óleo
Despojóleo
Devastaróleo
Dominadóleo
Dominóleo
Embargóleo
Emprególeo
Encheóleo
Ensenhorear-se-óleo
Esbulhóleo
Escorcharóleo
Esfolaróleo
Exerçóleo
Exigiróleo
Exploróleo
Extorquir-óleo
Extorsóleo
Furtaróleo
Gatunóleo
Genocidóleo
Guerreóleo
Imperióleo
Intimidóleo
Invadióleo
Investidóleo
Investióleo
Ladróleo
Larapióleo
Latrocinóleo
Levaróleo
Levóleo
Limpóleo
Livróleo
Luto-óleo
Massacróleo
Medóleo
Míssil-óleo
Obede-servo-óleo
Ocupadóleo
Ocuparóleo
Penhorar-óleo
Pilharóleo
Piratarióleo
Porta-avi'óleo
Possuir-óleo
Preferir-óleo
Rapinóleo
Rapóleo
Raptóleo
Recolheróleo
Ressentidóleo
Reuni-óleo
Rifóleo
Roubaróleo (variante de Roubóleo)
Roubóleo (variante de Roubaróleo)
Salteadoróleo
Saqueóleo
Seguróleo
Seqüestróleo
Sorveróleo
Subjugaróleo
Subtrair-óleo
Surripiaróleo
Tiraóleo
Tiro ao alvóleo
Tiróleo
Tomadióleo
Tomahawk'óleo
Tomóleo
Traficóleo
Usóleo
Usuraóleo
Usurparóleo
Vendidóleo





Ciro "Collor" Gomes

Desde o século XIX, os Gomes governam Sobral, típica cidade nordestina.

Como sabemos, a proclamação da República não alterou o "status quo". Os problemas antigos com rosto novo. Assim poderíamos chamar o período inicial da República. Os mesmos grupos permaneceram no poder. A ordem das classes dominantes se manteve; os proprietários rurais continuavam a dar as cartas. O jogo viciado, sabia-se de antemão o resultado.

Entretanto, os trabalhadores foram compreendendo a necessidade de sua organização para enfrentar a exploração das poderosas oligarquias. A luta desigual vitimou muita gente das classes populares. Porém, a ladainha dos latifundiários também sofria severos questionamentos. As classes defendiam seus interesses com os instrumentos disponíveis. Tal como ocorre nos dias de hoje.

Em 1989, Fernando Collor, o arauto da modernização conservadora, iniciava o processo de destruição do parque industrial brasileiro, a pretexto de aperfeiçoá-lo, sob aplausos da elite "esclarecida", que via a importação e a implementação de políticas neoliberais como expressão de progresso e de desenvolvimento. O neocolonialismo já mostrava sua voracidade ao dominar a infra-estrutura e outros setores vitais de nossa economia, tornando-a vulnerável aos humores de especuladores de todos os naipes.

Fernando Henrique Cardoso aprofundou de maneira radical o programa de Collor, com as conseqüências devastadoras que todos podem notar: crise de energia, de saúde, financeira, moral etc.

Com o esgotamento das receitas do FMI e similares, que desembocaram nas tragédias que vitimam os povos da Argentina, do Uruguai, do Peru, do Brasil e de outros países, a direita recorreu a mais um truque de prestidigitação. O conservadorismo encontrou em Ciro Gomes (ex-integrante do ninho tucano e do PDS, o partido da ditadura militar) a reencarnação de Collor de Mello, reeditando a sinistra figura voluntarista para tentar barrar, outra vez, a esquerda representada por Lula.

Aos órfãos de Collor, Ciro supre os requisitos fundamentais pois está acompanhado da mesma entourage: o grande capital (abrindo a burra); a tropa de choque collorida (Roberto Jefferson, José Carlos Martinez --- nutrido por PC Farias, Gastone Righi, Leonel Brizola...); o clientelismo e o fisiologismo do PFL (de ACM, Inocêncio de Oliveira, Hildebrando Paschoal...); o arquipeleguismo do PTB (Paulinho, Força Sindical...); os institutos de pesquisa (o Vox Populi e assemelhados); e os novos adeptos, como o ex-comunista Roberto Freire (nada pior do que um ex).

No entanto, a ascensão de Collor ou a de Ciro Gomes, e de seus métodos pouco ortodoxos de obter votos, não são uma fatalidade, e os degraus de sua escada são, em grande parte, dados por aqueles que só irão perceber tarde a ingenuidade de ouvir o canto de sereia que se apresenta como retórica agressiva para encobrir as reais intenções dessa oligarquia "moderna". Temos novamente uma tentativa de processo de repetição histórica e, segundo a teoria histórica de Marx, a qual completa Hegel, a história se repete de duas formas: "A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa" (O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Col. Os Pensadores. SP: Abril Cultural, 1978, pág. 329).

A onda de salvação individual (o Reino de Deus a pronta entrega; as academias de ginástica modelando à perfeição o narcisismo oco predominante; os telefones 0300... salvando quem quiser, quer dizer, quem ligar e pagar...) vem montada no cavalo da descrença e da desilusão com as soluções coletivas. Esse apequenamento instala, ainda mais, a desesperança e a indiferença. Cumprindo o desejo daqueles que desvitalizam a existência ao burocratizar instâncias antes intransponíveis a esse sistema econômico opressivo e irracional, que multiplica os "imprestáveis" e precisa aniquilá-los por não estarem inscritos na minúscula lista de presença dos "servíveis".

É necessário barrar a farsa montada pelos reacionários. É possível sairmos do catecismo neoliberal e de suas platitudes, que deterioram e despedaçam o mundo acumulando escombros, enquanto seus protagonistas insistem em saber qual é o melhor local para afixar o lustre.





A luz

Esquivava-se das pessoas com andar apressado e turbulento. Quem o visse asseguraria que tinha os pés em brasas, e se indagaria: aonde irá? Por causa de um menor aceno se irritou. Procura outro caminho onde não seja incomodado. Retira-se da rua, do bairro, em seguida da cidade e, depois ainda, do país.

Mergulha sua mão no bolso, em busca da chave da nova casa. Porém, lembra-se de que havia esquecido a porta aberta, o que motivou certa apreensão.

Rigorosamente examina todos os cantos da casa na esperança de que nada esteja faltando.

Circunspecto e quase febril, fica atônito ao perceber um clarão de luz vindo da biblioteca. "Será um disco voador ?"

Com os passos não muito firmes, balbuciando algumas coisas incompreensíveis, resolve, enfim, verificar o que é "aquilo". Algumas gotas de suor nervoso escorrem na testa.

Recruta, próxima à porta, o que lhe resta de forças. Tomado de estupor, suas pernas não obedecem. "Com os diabos, o que acontece?", diz firme, procurando convencer-se de uma calma que não tem.

Uma luz incandescente fere seus olhos, quase cegando-o; em vão pretende impedir com o braço a passagem da luz, que lhe ofusca a visão.

Embriagado de pavor e ao mesmo tempo curioso, irrompe numa disparada em direção à luz.

Todavia, se encanta com sua coragem. Nota que a imensa claridade vem de "um livro. Isto mesmo, um livro".

Sentindo-se arrebatar, compulsivo, segura o livro, quase amassando-o. Sem mais abre o livro.

Entretanto, para sua perplexidade, a luz se esvai. Imediatamente ele retorna àquele estado de paralisia, sem saber o porquê disso tudo.

Quando recobra os sentidos, uma luz muito semelhante, aliás parece a mesma, chama sua atenção, desta feita, vinda de um outro livro.

Está desconfiado e curioso. Encara a luz com fúria. Este gesto, conquanto sua bravura seja grande, não se mantém por muito tempo, pois o brilho é muito intenso.

Decidido, embora cético, se aproxima do livro. Procura demonstrar, com olhar altivo e bastante formal, sua superioridade e honra, feridas.

Volta a tremer levemente, lentamente. Com um pequeno safanão, afasta o medo e se enche de orgulho. "Nada temo!", afirma feliz e seguro de si.

Abre, desta vez com suavidade, o livro emissor da luz. Esta, ao contrário da vez anterior, permanece. Encantado, esboça um longo sorriso. Entontecera de tanto contentamento.

Mas... seu sorriso, era possível entrever, já não expressava a mesma aparência de graça. Quem o visse de certo consideraria encolerizado.

A luz... como que por mágica foi se atenuando, mansamente, sem que se pudesse perceber. "Não é possível... há alguém conluiado com o diabo que me está pregando uma peça." Benzeu-se ao dizer isto.

"Terrível." Assim diria quem o visse. "Deve ser louco", talvez outros supusessem. Desvairado ia de encontro à luz que estava nos livros. Como guerreiro feroz, vencia livro após livro; mas a luz excedia sua pertinácia: brilhava num livro, sumia mas reaparecia em outro, sempre.

Ao final de alguns dias estava recostado, ou melhor, mergulhado entre os livros. Avidamente, devorou todos. Não comeu nem bebeu durante esse tempo.

Esquivava-se das pessoas com andar apressado e turbulento. Quem o visse asseguraria que tinha os pés em brasas, e se indagaria: aonde irá ?

Por causa de um menor aceno se irritou. Procura outro caminho onde não seja incomodado... pois a luz o perseguia.





Campanha pró-canonização de FHC
para santo dos banqueiros

Papa João Paulo II, rogamos à sua santidade a canonização de Dom Fernando Henrique Cardoso como defensor implacável dos banqueiros e empresários que administram seus negócios de forma temerária (mas sem riscos). Seus milagres se verificaram no Marka, no FonteCindam, no Opportunity etc., bem como em votações no Congresso e outros casos (compra de votos para a emenda da reeleição, Sivam, BNDES etc.). Milhões são testemunhas de sua obra benemérita e das de seu partido, o PSDB - Partido para Salvar Banqueiros, em favor dos endinheirados; são abnegados e sempre fiéis à nossa causa, numa época em que a infidelidade é uma praga moderna! Em tempo: necessitando algum auxílio no Processo de Santificação, poderemos contar com o apoio solícito do Banco Central e de seus subsídios recorrentes. Humildemente, São Cifrão.

PS. Conte também com a sede da FEBRABAN para a cerimônia (Apud. Macaco Zé Simão).







Carneiros


"Olhais para o alto, quando aspirais por elevação.

E eu olho para baixo, porque estou elevado.

Quem de vós pode ao mesmo tempo rir e estar elevado?

Aquele que galga as mais altas montanhas ri de todas

as tragédias lúdicas e de todas as tragédias sérias."

Os rebanhos gemem

Dias doidos e atrevidos;

Mas seus corações não tremem,

Estão embrutecidos.

Resignados peregrinam

Em busca de um alento.

Choram as últimas lágrimas:

O apocalipse, desta vez, não falha.



Adaptado de Friedrich Nietzsche,

Zaratustra, Primeira Parte, Do ler e escrever.





Carta ao pai

Pai,

Sua luta final também foi exemplar.

Apesar da conjuntura adversa, você soube manter a dignidade. Mostrou a todos nós a importância da vida. E consumiu seus últimos momentos nos ensinando a ser mais perseverantes, generosos, presentes, serenos e inteligentes.

Lembro-me sempre de sua indignação diante de tanto horror esculpido no mundo diariamente. Sobram alienados. Mas sua reação sempre destoava dos insensíveis que estão no planeta como se fossem autômatos.

Os aproveitadores ficarão felizes com sua partida. Talvez por acreditarem que o sistema de injustiças e hipocrisias sociais alimentados por eles agora tenha um opositor gabaritado a menos.

Não compreenderão jamais, pai, que sua determinação e seu empenho em posicionar-se contra esse modelo produziu muito mais oponentes. Quiçá essa nova safra seja tão boa quanto a sua.

Você sabe, pai, que contou na vida com uma companheira singular, generosa, presente! Na reta derradeira, então, ela excedeu em tudo o que se pode esperar de uma esposa. O que nos faz entender que nós temos muitas possibilidades. Mas é preciso estar presente, doar-se quando necessário. Porque às vezes não haverá outra oportunidade.

Os transtornos em seu percurso pareciam multiplicar-se sem trégua. Com fibra e energia redobradas, você respondia às intempéries da vida.

Hoje também sou pai. E reconheço muitas semelhanças.

Quem aprendeu pode aproveitar.

Quem quiser aprender pode perguntar.

Quem não entendeu, calma, ainda tem tempo. Observe o que há de mais relevante na vida. Aí estará pronto para aprender a viver com amor, generosidade e compaixão. Nunca é tarde.

Com carinho,

Agenor Bevilacqua Sobrinho





Desempregado


Merece viver quem não é explorável pela Sociedade Anônima?

Merece viver quem procura o que se torna cada vez mais escasso?

Sobra, dejeto, imbecil!

Não procure, não perturbe, não amole.

Finalmente encontrou ocupação

Procurar emprego é a sua profissão.

Se manca, se toca;

Você é o único responsável por sua inutilidade,

Desempregado, não há vaga na modernidade.

Vai logo encomendando o seu caixão,

Desgraçado, celerado,

Até para morrer

É um peso social. Infernal!

FMI, Banco Mundial...

O deus é o Capital

Isenção, subvenção, doação, genuflexão para o conglomerado

Porrada para o desempregado.

Nossa complacência nos obriga,

Bilhete só de ida

É a solução final,

Tá acabado:

Overdose pro desempregado!

Vai logo encomendando o seu caixão,

Desgraçado, celerado,

Até para morrer

É um peso social. Infernal!





D i t a d o r


Há pouco tempo o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que desejaria ser ator. Parece-me que ele anda tomando emprestado falas de personagens do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956). Mais especificamente as de Arturo Ui. Em A resistível ascensão de Arturo Ui (1941), Brecht constrói uma parábola que conta a ascensão de um chefe mafioso de Chicago associando-a à trajetória de Hitler: os negócios de Arturo Ui concentram-se em atemorizar atacadistas de armazéns de hortaliças e legumes, ateando fogo num desses estabelecimentos (referência ao Parlamento Alemão) para, providencialmente, vender sua proteção a peso de ouro e terror. Ui toma o poder do prefeito subornado pelos atacadistas, Dogsborough (Von Hindenburg), expandindo, assim, sua rede criminosa às custas de assassinatos e uma infinidade de delitos. Com seus aliados Giri (Göring) e Givola (Goebbels), mata outro serviçal, Roma (Ernest Röhm, até 1934, Chefe da SA - Sturmabteilung - divisão de assalto). Elimina o chefe de uma gangue rival, Dullfeet (Dollfuss), de Cícero (a Áustria), além de apoderar-se de sua viúva. Consegue a aclamação de Chicago e de Cícero. Como todos os impérios, o negócio de Ui prospera, deixando por toda parte pilhas de cadáveres.

Brota de sua fala o veio totalitário e embusteiro da livre escolha dos escravizados de seu senhorio, que prega democraticamente:

...Quem é a meu favor? E quero mencionar de passagem: quem não for a meu favor, é contra mim e terá que se responsabilizar pelas conseqüências dessa atitude. Agora vocês podem eleger! (BRECHT, Bertolt. A resistível ascensão de Arturo Ui. RJ: Paz e Terra, 1992, pág. 211).

E no curso da história aparece o sociólogo-plagiador democrático.

...Quem estiver ao nosso lado votará a favor. Quem estiver votando contra está contra mim e está fora do governo. (CARDOSO, Fernando Henrique. In: Folha de São Paulo, "Brasil", 09/05/2000, pág. A-4).

No entanto, a ascensão de Hitler ou a de FHC não é uma fatalidade, e os degraus de sua escada são, em grande parte, dados por aqueles que só irão perceber tarde a ingenuidade de ouvir o canto de sereia do chefe presidente. Temos aqui um processo de repetição histórica e, segundo a teoria histórica de Marx, a qual completa Hegel, a história se repete de duas formas:

A primeira vez como tragédia, a segunda como farsa (O 18 Brumário de Luís Bonaparte. Col. Os Pensadores. SP: Abril Cultural, 1978, pág. 329).





Efeito lingüeta

O José Aníbal, aquela figura "educada", acabou de criar o efeito "lingüeta".

Antes, o "mercado", essa entidade fantasmagórica que não tem cara (mas que todos conhecemos), dizia que os títulos se desvalorizavam pelo efeito Lula, a subida do candidato do PT nas pesquisas.

Agora, aquela figura "educada", temeroso dos desdobramentos das falas de seus amiguinhos que estão dando com as línguas nos dentes, "cagüetando", como diria o menino no morro, inventou esse efeito "lingüeta". Como diz o Macaco Simão, "tucanaram" o alcagüeta.





Estado policial tucano

A estrutura da Polícia Federal parece estar a serviço do PSDB, convertendo-se em Comitê Eleitoral da plutocracia tucana. Esta viola as regras do Estado de Direito, utiliza a mídia para estigmatizar adversários e inimigos e faz uso da arbitrariedade, do favorecimento, do segredo e da obscuridade, generalizando práticas ilícitas e ilegais.

A intimidação e a truculência, próprias das ditaduras, recebem aplausos da imprensa "liberal", ciosa da manutenção de privilégios patrocinados por essa oligarquia pretensamente ilustrada.

Vigiaram o candidato do PT à Presidência por 428 dias. As alegações de que se investigariam "imóveis em nome de laranjas" e "quadrilha de narcotraficantes" são um acinte até para retardados.

Concordamos que se deva apurar toda e qualquer irregularidade. Entretanto, a seleção de oponentes para a execração pública sem defesa prévia e o salvo-conduto para "ilustres autoridades" envolvidas em escândalos de maior dimensão, só nos remetem ao passado: aos amigos do Rei as benesses da Corte; aos inimigos, a lei. Caso esta não enquadre o perseguido, a ilegalidade torpe.







João. Rock aberto.



Rock aberto à sua excelência.

Não quero saber de excrescência.

Socorro, Al Capone;

Socorro, Fernando Collor.

Seus recordes estão por um triz.

Os vigaristas atuais

vão superá-los por uns bis.

Agora são as Vales.

Dizem que não valem.

Que loucura!

Estão querendo transformar

As Vales do Rio Doce

No vale da amargura.

E quem vai pagar a diferença

É o João, otário de plantão. (BIS)

Vamos jogar no bicho,

Lá vale o escrito.

Quem pede para esquecer

o que escreveu

não merece confiança

nem da Madre Tereza de

Calcutá, Haiti

É aqui, João, otário de plantão. (BIS)

A(corda), João!

Estão lhe roubando

À luz do dia, da noite, da madrugada;

Até mesmo sem luz.

Eta pessoal trabalhador!

Mas não se preocupe,

quem manda são os iluministas.

Logo vem a tese

para lhe explicar

que assim você será,

finalmente, cidadão.

Viva o João!, otário de plantão. (BIS)

Mas o lamento

É pequeno, meu irmão.

A história vem de longe

Já rifaram o tataravô

de nosso tataraneto.

E as prestações

da reeleição

vão de geração em geração.

Paga o João, otário de plantão. (BIS)

A(corda), sociólogo,

Chegou a sua hora.

Já mandaram avisar

lá do futuro

que não pagam a fatura, não!

Lá não tem João, otário de plantão. (BIS)

Basta de reeleição!

Começa a trabalhar,

não dá moleza pra sorte;

Senão, até o João,

desperta do

berço esplêndido.

E aí, ó, ó!

Deixa de ser

João, o otário de plantão. (BIS)






Neoliberalismo


Rugem os leões

Sorriem histericamente as hienas

Rugidos cadavéricos

Sorrisos macabros

Globalização!

Exulta o ladrão.

Rangem os dentes

Choram descompassadamente

Ranger receoso

Choros nervosos

Oceano de sangue

Cacetetes pacificadores

Globalização!

Exulta o ladrão.

Mar de gemidos

Obediência voluntária

Disparavam o ódio

Dispersavam o amor

Dizimavam os povos

Diziam-se os bons

É o fim da História

Globalização!

Exulta o ladrão.

Atingidos povos inteiros

Estraçalhados os corações

Fábrica de cemitérios

Diziam-se os bons

É o fim da História

Globalização!

Exulta o ladrão.

Hipócritas! Hipócritas! Hipócritas!

Mas...

Os ouvidos estão surdos ao rugir dos leões

Os olhos estão cegos ao sorriso histérico das hienas

Os braços impedem a passagem de rugidos cadavéricos

As pernas chutam sorrisos macabros

Porque...

O ranger de dentes é das metralhadoras

O choro descompassado é da emoção

O ranger receoso não mais nos pertence

O choro nervoso é dos tiranos

E...

Se estancará o sangue

Não existirá a paz dos cacetetes

Pois...

O mar de gemidos inundou os usurpadores

E a obediência voluntária feriu seus acólitos

Eles...

Fugiram em disparada

Atraiam-se ao dispersarem-se

Os povos os dizimavam

Bons, ninguém dizia deles

Nós...

Atingidos por inteiro nos erguemos;

Tendo os corações estraçalhados, os reconstruímos

A fábrica de cemitérios foi enterrada

Não dizíamos que eles eram bons

Quem dizia eram os hipócritas.

É o fim da ladainha do fim da História;

É o fim da ladainha da globalização.





Nostalgia



Pedagogia tucana. Na década de 70 tínhamos o ABC do entreguismo. Na década de 90, os governos tucanos, do alto de sua sapiência, estenderam o serviço a todo o abecedário, de A a Z, inaugurando o pedagógico FHC do entreguismo, mais um lançamento editorial da FHC: Fundação Hospitalar pró-Cifrão (ajuda ao próspero em 1º lugar). Neste livro o leitor encontrará o nacionalismo peculiar de FHC - o norte-americano - e a adaptação de Descartes (Cogito, ergo sum) para a moda neoliberal tupiniquim: "Nacional é brega; logo, entrega."

Devido aos avanços tecnológicos, no século XXI é bem mais fácil precisar o ritmo do entreguismo. Cuidado quando for convidado a uma solenidade e não se constranger em cantar o Hino abaixo:

HINO NACIONAL NEOLIBERAL

Num Posto da Ipiranga, às margens plácidas,

De um Volvo heróico Brahma retumbante,

Skol da liberdade, em Rider fúlgido,

Brilhou no Shell da Pátria nesse instante.

Se o Knorr dessa igualdade...

Conseguimos conquistar com braço Ford,

Em teu Seiko, ó liberdade,

Desafio nosso peito à Microsoft!!!

Ó Parmalat, Mastercard, Sharp, Sharp....

Amil um sonho intenso, um rádio Philips,

De amor e de Lufthansa à terra desce!!!

Intel formoso céu, risonho Olympicus,

A imagem do Bradesco resplandece!!!

Gillete pela própria natureza,

És belo, Escort, impávido colosso,

E o teu futuro espelha essa Grendene.

Cerpa gelada!!!

Entre outras mil é Suvinil, Compaq amada.

Do Philco deste Sollo és mãe Doril,

Coca-Cola, Bombril !!!





O apagão moral e os "fernandetes orgânicos”

O processo de reeleição já nasceu viciado com a compra de votos para aprovar a emenda constitucional que permitiu a recondução do presidente FHC. O interesse público foi substituído pela mesquinharia de um grupo político que quis se perpetuar no poder não para realizar as transformações necessárias e favoráveis ao povo brasileiro, mas, sim, para alimentar o capital financeiro especulativo e predatório com a demagogia cambial, multiplicando o desemprego e a fome dos brasileiros como nunca se havia visto em nossa história.

O uso descarado da máquina do Estado, conjugado ao abuso do poder econômico e de parte da imprensa oficialista, mantiveram, por largo período, a população alienada e anestesiada da realidade.

As velhas e novas oligarquias encasteladas no poder, por enquanto, têm impedido a instalação de CPIs para investigar o Sivam, a Pasta Rosa, a compra de votos da reeleição, o dossiê Cayman, as fitas do BNDES, a Sudene, a Sudam, o sistema financeiro, as privatizações nebulosas do setor energético, de telecomunicações... E demais esqueletos guardados a setecentas chaves e senhas nos porões dos iluministas (opa!), que ora nos apresentam a bula dogmática tucano-pefelista e suas teses de flagelação tarifária endereçadas aos incautos acionadores de interruptores de aparelhos eletrodomésticos supostamente inofensivos.

Os antigos e atuais senhores da Casa Grande não atentam para as demandas populares. Não planejam ações efetivas de governo e se dizem "surpresos" com os acontecimentos. Ostensivamente repudiam os movimentos populares organizados e as minorias. Por isso, receitam isenção, subvenção, doação, genuflexão para os conglomerados. E cacetadas para os desempregados. Não há vaga na pós-modernidade social-democrata de sua majestade.

Hoje, os avanços tecnológicos nos permitem precisar o ritmo e as conseqüências do entreguismo desenfreado levado a efeito pela adaptação peculiar de René Descartes (Cogito ergo sum) na moda neoliberal tupiniquim de FHC: "Nacional é brega; logo, entrega." E seu corolário: a modernização conservadora para desmantelar um projeto de país soberano e independente tecido pelos setores democráticos da sociedade.

Os "fernandetes orgânicos", ideólogos que pontificam a defesa de sua majestade, deveriam ouvir e recordar suas lições sobre ética. Talvez, dessa forma, seriam mais coerentes nas suas reflexões, pois quando o objeto de suas análises são seus amigos a amnésia e a esclerose intelectual aumentam assustadoramente.

Finalmente, uma mensagem de um brasileiro que não suporta ver seu país atolado na lama, na escuridão e emaranhado num cipoal de crimes e desmandos de sua elite retrógrada.

Para que o povo brasileiro não tenha a falsa impressão de que é obrigado a aturar as agruras e sofrimentos impostos por uma política econômica recessiva, antinacional e perniciosa por várias gerações, é necessário prestarmos atenção ao atual momento histórico que se caracteriza pela urgência Ética de sair dessa "overdose" de corrupção que, não por acaso, rima com apagão, com falta de transparência e de esclarecimentos.






Que queres?


Que queres?

Que meus olhos mudem de cor?

Que meus ouvidos não ouçam?

Que minha voz não grite?

Que meu coração não bata?

Que minhas mãos não se mexam?

Que meus braços se tornem pedras?

Que minhas pernas não me transportem?

Que meus dias não tenham luz?

Que minhas noites não tenham estrelas?

Que me falte ar?

Que transfigure meu ser?

Que eu não seja?

Que tenha outra personalidade?

Que as músicas não sejam melodiosas?

Que a dança não tenha ritmo?

Que o sol não brilhe mais quando o admiro?

Que a água não sacie minha sede?

Que todo cansaço seja pouco para mim?

Que...?

Não queiras...

O impossível é mais fácil de ser alcançado.





O fabricante de desemprego

Neste país não há realeza que perdure. Vide a trajetória infeliz de FHC: de príncipe da Sociologia para títere do FMI e produtor de desemprego em escala industrial.

Hoje, o Brasil não é mais um país que possui desemprego, mas é o desemprego que possui o Brasil.





"Oitários”

A milionária campanha publicitária dos 8 anos de (des)governo de sua majestade FHC, estimada em quase 100 milhões de reais, deveria ser interrompida pela Justiça, atendendo aos mínimos preceitos de moralidade para frear esse abuso despudorado dos recursos públicos para promoção pessoal. Temos a esperança de que haja, algum dia, ressarcimento dos valores já gastos. Caso contrário, permaneceremos como os ‘oitários’ a pagar por mais essa festança desprovida de sentido republicano e claramente acintosa para os que trabalham e pagam seus impostos, e que observam, irritados, sua utilização em subsídios bilionários para ‘compensar os prejuízos’ das empresas privatizadas de energia e de outros setores"







O PROGRESSO COMO RAZÃO E VIOLÊNCIA

Ou a história dos vencedores ou da servidão.

O clamor de mudança é sempre atual na sociedade brasileira. Do contrário, seremos constantemente vítimas da história dos vencedores e de seus discursos. E embustes, como, por exemplo, a ideologia da globalização. Se perguntarmos para o opressor se ele se sente culpado, obteremos uma resposta como a exemplificada numa cena que criamos.


NAZISTA (ou outro do mesmo naipe) que governa para a tirania do mercado: Eu? Faço tudo para o bem da humanidade. Sou feliz cumprindo o meu dever, porque o progresso tem como razão a violência.

NARRADOR EM OFF: O progresso como razão e violência. Ou a história dos vencedores ou da servidão.

APARECE O LETREIRO COM A INSCRIÇÃO:

(FALA EMPREENDIDA ANTES DA TOMADA DO PODER).

NAZISTA (ou outro do mesmo naipe):

Onde olhas favelas, verás jardins

Pobres e esfarrapados, crianças sadias

Rugas e velhice, juventude e beleza

Ovelhas desgarradas, estudiosos

Grande bagunça, ordem impecável

Rios imundos, água cristalina

Encalhes de produtos, vendas mil...

Sarampo e outras epidemias, a panacéia

Soluços e gemidos, alegria e contentamento

Ócio, trabalho.

Construiremos o futuro

O progresso para todos

Muitos benefícios

Orgulho nacional.

DESCE O LETREIRO COM A INSCRIÇÃO:

(AÇÃO EMPREENDIDA DEPOIS DA TOMADA DO PODER)

Respeita o teu senhor!

Apaixona-te pelo que faz, mesmo que a contragosto

Zanzar em hora de serviço, jamais!

Anões desqualificados, não de acordo com a estética

Oh! Nosso país de homens perfeitos!

E sempre a postos para responder:

Venho cumprir as determinações

Irei obedecer-lhe cegamente ( obede-servos, ser-te )

O senhor é o meu comando

Liberdade é segui-lo

Em circunstâncias quaisquer,

Nós estaremos aqui para defendê-lo

Caminhamos sob sua luz

Imploramos a sua compreensão

Amamos o seu progresso. Ele é nosso também.





O rei e o reinado

Saudações!

Lembrei-me de uma conversa com alunos logo após os atentados. Dizia a eles que os EUA usam o efeito Toshiba para o terrorismo, ou seja, algo como "nossos terroristas são melhores do que os dos outros".

A seguir, o texto que ilustrou minha conversa com eles.

Um abraço do Agenor.

O IMPÉRIO E SUAS COBRAS ou O REI E O REINADO

Havia um reino em que o rei gostava de alimentar cobras de todos os continentes. Ele tinha suas preferências. Especialmente pelas mais esganadas e truculentas. Como comiam as ditas cujas! Algumas eram exóticas.

Um dia, sua majestade foi surpreendida com a voracidade de uma de suas prediletas, que deu-lhe uma mordida feroz.

O rei, não entendendo o motivo, indagou-se:

---- Que fiz eu a esta maldita?

Mas os súditos melhor informados dos costumes de sua realeza, tão logo ouviram a queixa, murmuraram:

---- Será que ele não sabe?






O tempo


O tempo...

Mata quem pensa matar o tempo.

Passa trazendo permanência e mudança.

É curto ou longo demais.

Tempera a mente.

Presente nos solicita.

Futuro nos reivindica.

Passado nos multiplica.

Pede outro tempo para ser bom tempo.

Se exalta e grita.

Se alegra e fala.

Se amarga e chora.

Se emaranha e se destrincha.

Brinca.

Ratifica, retifica e claudica.

Brilha e ofusca.

Destrói e recria.

É de encontros e de desencontros.

Nos consome e segue adiante.

Recupera e é irrecuperável.

Virou, emborcou.

Melhorou.

Nos envelhece.

Nos constrói.

Observa e compreende.

Ignora e busca.

Se esgota e recomeça.

Avança e se retrai.

Empresta e cobra.

É delicado e bruto.

Descobre e encobre.

Limita e espanta.

Cansa e descansa.

Morre e renasce.

Não tem fim.






Raio na torre


O mundo desperta com o raio na torre

De onde veio? (vocal ) Ninguém viu! (coro )

O tumulto estava formado

E as estrelas, testemunhas de tudo, escreveram:

Os pregadores ajoelhados

Fitavam os ladrões que se acotovelavam

Ao ver as mulheres murmurarem

Ao ouvir as crianças balbuciarem

Todos se perguntavam:

De onde veio o raio na torre? (coro )

Até hoje não se sabe

Mas o mundo despertou

As sombras dissipadas

A ignorância enfraquecida

Os sonhos realizados

A inteligência fortalecida

E até hoje se espera...

O raio na torre.







Previdência social e imprevidência governamental


Os fundos públicos de previdência têm por objetivo (teoricamente) garantir às pessoas uma velhice em condições de dignidade.

A aposentadoria foi um direito conquistado com muita luta e sangue; entretanto, o atual governo se esmera em privatizar fundos públicos de previdência podendo tornar inviável a garantia a milhões de brasileiros.

É uma questão grave e não devemos ignorá-la. Afinal, trabalhar a vida toda e no final da existência não ter o mínimo para sobreviver é demais.

Alguns países tentaram privatizar sua previdência. Fortunas de milhões de trabalhadores foram transferidas para as empresas particulares que passaram a geri-las sem controle.

Os trabalhadores se viram diante do problema prognosticado por críticos daquelas medidas, ou seja, os grandes milionários da previdência privada levaram para paraísos fiscais centenas de milhões de dólares e se evadiram também.

É preciso barrar essa insanidade antes de sua implementação total.










COLABORADORES:





Bertolt Brecht - teatrólogo alemão


Coletânea

"Primeiro levaram os comunistas,

mas não me importei com isso,

eu não sou comunista.

Em seguida levaram alguns operários,

mas não me importei com isso,

eu também não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,

mas não me importei com isso,

eu não sou sindicalista.

Depois agarraram os sacerdotes,

mas como não sou religioso,

também não me importei.

Agora estão me levando,

mas já é tarde..."



"Há aqueles que lutam um dia; e por isso são bons;

Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;

Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;

Porém há aqueles que lutam toda a vida;

esses são os imprescindíveis."





"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.

Suplicamos expressamente:

não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,

pois em tempo de desordem sangrenta,

de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,

de humanidade desumanizada,

nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar."







"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.

É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário.

E agora não contente querem privatizar o conhecimento,

a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence."

"O Vosso tanque General, é um carro forte Derruba uma floresta esmaga cem Homens,

Mas tem um defeito - Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general É poderoso: Voa mais depressa que a tempestade

E transporta mais carga que um elefante Mas tem um defeito - Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil: Sabe voar, e sabe matar

Mas tem um defeito- Sabe pensar."





Elogio da dialética

"A injustiça avança hoje a passo firme

Os tiranos fazem planos para dez mil anos

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são

Nenhuma voz além da dos que mandam

E em todos os mercados proclama a exploração; isto é apenas o começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem

Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca

O que é seguro não é seguro As coisas não continuarão a ser como são

Depois de falarem os dominantes

Falarão os dominados

Quem pois ousa dizer: nunca

De quem depende que a opressão prossiga?

De nós De quem depende que ela acabe?

Também de nós

O que é esmagado que se levante!

O que está perdido, lute!

O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha

E nunca será: ainda hoje

Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã."





Analfabeto político


O pior analfabeto é o analfabeto político.

Ele não ouve, não fala,

nem participa dos acontecimentos políticos.

Ele não sabe que o custo de vida,

o preço do feijão,

do peixe,

da farinha, do aluguel,

do sapato e do remédio

dependem das decisões políticas.


O analfabeto político é tão burro

que se orgulha e estufa o peito

dizendo que odeia política.

Não sabe o imbecil que,

da sua ignorância política,

nascem a prostituta,

o menor abandonado, o assaltante

e o pior de todos os bandidos:

que é o político vigarista,

pilantra, o corrupto

e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.







Carlos Heitor Cony

Folha de S. Paulo
6 de junho de 2000
Rio de Janeiro


Caricatura de presidente


Cada vez que o presidente da República dá um giro lá fora,

a impressão que fica é a de uma caricatura, às vezes pomposa, às vezes

ridícula, como é da natureza das caricaturas.

Antenado para o auditório mais próximo fisicamente, ele fala qualquer coisa

sobre qualquer tema. Sabe que dois e dois são quatro e essa obviedade é

brandida em todas as situações, mas sempre com deslumbrada ênfase acaciana,

de verdade recém-descoberta e inapelável.

Lá fora, como lembrou o editorial de domingo da Folha, se comporta como o

líder da oposição de um país atolado na corrupção, na concentração de renda

mais injusta do planeta, no servilismo mais explícito ao Consenso de

Washington.

Teve cinco anos e meio de governo, tem à disposição a usina de decretos-leis

que nem todos os ditadores tiveram, pois as medidas provisórias de que tanto

abusa nada mais são do que leis que, podendo ser reeditadas, deixam de ser

provisórias.

Com esse arsenal de força, fez e continua fazendo as opções mais

antinacionais e, simultaneamente, mais perversas. Conduz o país a um estado

de exaltação que começa a se manifestar em agressões ainda preliminares, mas

que tendem a se repetir.

Até que, de duas uma: ou teremos uma ruptura do processo da democracia

formal ou entraremos naquela zona de risco de uma guerra civil.

O mais ridículo nessa caricatura de presidente da República é que ele

continua cobrando, ninguém sabe de quem, uma ação mais voltada para o

social. Cada vez que toca no assunto, ele dá a impressão de que nada tem com

a realidade de seu governo.

Afinal, quem é o verdadeiro presidente da República? O ator que imita o

presidente lá fora? Ou o presidente que aqui dentro nada tem com o ator que

o imita?






Charlie Chaplin

Preciso de alguém...


Que me olhe nos olhos quando falo.

Que ouça as minhas tristezas e neuroses com paciência

e, ainda que não compreenda, respeite os meus

sentimentos.

Preciso de alguém que venha brigar ao meu lado sem

precisar ser convocado.

Alguém amigo o suficiente para dizer-me as verdades

que não quero ouvir, mesmo sabendo que posso ficar

irritado por isso.

Nesse mundo de céticos, preciso de alguém que creia

nessa coisa misteriosa, desacreditada, quase

impossível: a amizade.

Que teime em ser leal, simples e justo.

Que não vá embora se algum dia eu perder o meu ouro e

não for mais a sensação da festa.

Preciso de um amigo que receba com gratidão o meu

auxílio, a minha mão estendida, mesmo que isto seja

muito pouco para suas necessidades.

Preciso de um amigo que também seja companheiro nas

farras e pescarias, nas guerras e alegrias, e que no

meio da tempestade, grite em coro comigo:

"Nós ainda vamos rir muito disso tudo... "

E ria muito.

Não pude escolher aqueles que me trouxeram ao mundo,

mas posso escolher meu amigo.

E nessa busca empenho a minha própria alma, pois com

uma Amizade Verdadeira, a vida se torna mais simples,

mais rica e mais bela...









Pablo Neruda

Poemas de amor


Nós perdemos também este crepúsculo.

Ninguém nos viu à tarde com as mãos unidas

enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Vi, de minha janela,

a festa do poente nos montes distantes.

Às vezes, qual moeda,

acendia-se um pouco de sol em minhas mãos.

Eu te recordava com a alma apertada

por essa tristeza que conheces em mim.

Então, onde estarias?

Junto a que gente?

Dizendo que palavras?

Por que me há de vir todo este amor de um golpe

quando me sinto triste e te sinto distante?

Caiu-me o livro que sempre se escolhe ao crepúsculo,

e como um cão ferido rolou-me aos pés a capa.

Sempre, sempre te afastas pela tarde

até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.







Paralamas do Sucesso

Luiz Inácio



Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou

São trezentos picaretas com anel de doutor

Eles ficaram ofendidos com a afirmação

Que reflete na verdade o sentimento da nação

É lobby, é conchavo, é propina, é jetom

Variações do mesmo tema sem sair do tom

Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei

Uma cidade que fabrica sua própria lei

Onde se vive mais ou menos como na Disneylandia

Se essa palhaçada fosse na Cinelândia

Ia juntar muita gente pra pegar na saída

Pra fazer justiça uma vez na vida

Eu me vali desse discurso panfletário

Mas a minha burrice faz aniversário

Ao permitir que num país como o Brasil

Ainda se obrigue a votar por qualquer trocado

Por um par de sapatos, por um saco de farinha

A nossa imensa massa de iletrados

Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez

O Congresso continua a serviço de vocês

Papai, quando eu crescer eu quero ser anão

Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição

E se eu fosse dizer nomes a canção era pequena

João Alves, Genebaldo, Humberto Lucena

De exemplo em exemplo aprendemos a lição

Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão

De rádio FM e de televisão.





Violeta Parra

La Carta


Me mandaron una carta

por el correo temprano,

en esta carta me dicen

que cayó preso mi hermano

Y sin compasión con grillos

por las calles lo arrastaron.

si...

La carta dice el motivo

que ha cometido Roberto:

haber apoyado el paro

que ya se habia resuelto.

Si acaso ésto es un motivo

preso voy también, sargento.

Si..

Yo que me encuentro tan lejos,

esperando una noticia,

me viene a decir en la carta

que en mi patria no hay justicia.

Los hambrientos pieden pan,

los molesta la milicia.

Habráse visto insolencia,

barbarie y alevosia,

de presentar el trabuco

y matar a sangre fria.

Hay quien defensa no tiene

con las dos manos vacias.

Si..

La carta que me mandaron

me piede constestación:

yo pido que se propale

por toda la población

que el león es un sanguinario

en toda generación.

Si..

Por suerte tengo guitarra

y también tengo mi voz,

también tengo siete hermanos

fuera del que se engrilloó,

todos revolucionários

con el favor de mi Dios.

Si..






COLABORADORES ANÔNIMOS:



Rei Midas X Rei Mierdas

O DÓLAR X O REAL

Sobem o dólar e as bolsas e os juros e os preços! Se caírem, TAMBÉM os trabalhadores irão perder: os salários e os empregos!

REI MIDAS X REI MIERDAS!

Midas, rei da Frígia, tornou-se personagem mitológico. Conta a lenda que ele transformava em ouro tudo o que tocasse.

Eis que surge, no fim do século 20 e invadindo o século 21, um novo fenômeno, este produto da "Midiologia". Um ser REAL (NEM TANTO, pois como produto da mídia é ‘MIDIOLÓGICO’ ) : O REI MIERDAS, que, ao contrário do outro, tudo o que toca transforma-se em EXCREMENTO!

A história do Rei Mierdas começa (pois antes ainda era uma caquita) nos corredores da USP enganando os ilustres mestres (que morreram de desgosto). Já naquela época, o então príncipe MIERDAS aprontava. Fazia de conta que criava, quando, na realidade, copiava; a partir desses expedientes sua vidinha fácil deslanchou: galgou postos de poder na UNIVERSIDADE, arranjou cargos para alguns, empregos para outros, comissionamento para aquele, carreira para aquela... e foi indo. Bolsa de estudos para o apaniguado daqui, ofertinhas para o espertinho dali e pronto: garantiu citações "obrigatórias" nas dissertações, livros etc. Tudo como prova e reconhecimento do favor prestado pelo coronel que loteou entre os seus o latifúndio ACADÊMICO. Daí o motivo para tantas penas coloridas que estão tornando acéfalas as nossas Universidades, mormente as Paulistas...

Nas telas da televisão brasileira ele ainda titubeava entre Deus e adeus. É verdade que a MÍDIA fez o possível. Mas o inseticida veio logo depois de sua precipitada sentada no TRONO. Ainda não tinha vindo para o grande público o conhecimento de sua OBRA.

Temos que reconhecer: sua realeza tinha conseguido uma legião de fanáticos basbaques que o paparicavam como príncipe da Sociologia. Pobre ciência que cultivou a erva daninha.... E logo a erva que foi escolhida pelo CONSENSO DE WASHINGTON para sua Primeira (conhecida) OBRA!!! Uma vez que as anteriores foram remetidas ao esquecimento pela dita cuja, a erva daninha MIERDAS.

Revelou-se, então, até para os incautos: o rei era um brilhante porta-voz do CAPITAL. E logo ALI, naquele fato, nasceu o rei Mierdas, com sua recessão contínua tal qual desarranjo intestinal.

De lá para cá foram várias (e intensas) "OBRAS"! Como senador, nos gabinetes de Brasília, muitas "obras". Muitas "obras" que a maioria da população nem mesmo tem noção do quanto é malcheiroso, pois o olfato é enganado pela aparência que a Mídia dá - e, óbvio, pela TV (e pelo rádio) NÃO SE SENTE CHEIRO!!! Não sobreviveríamos!

Os exemplos citados aqui são apenas, talvez, 1% do total - não seria possível citar tudo, portanto!

Haveriam os casos em que algumas pessoas - seguidores, bajuladores, aproveitadores, súditos deste rei Mierdas, defenderiam com unhas e dentes, pois para eles, TIRAR DA MAIORIA (aumento de: impostos, pedágios, tarifas públicas, empresas privatizadas etc.) para DAR PARA ALGUNS (GM, FORD, TELEFÔNICA, SANTANDER, INTELIG, EMBRATEL, COMPANHIAS DE ENERGIA na privada, RBS etc.) significa transformar em ouro para estes miliardários o salário, a poupança, as pequenas rendas da maioria da população; MAS PARA NÓS, A MAIORIA ABSOLUTA, o rei Mierdas TRANSFORMA TUDO EM EXCREMENTO!!!

O desmonte e o endividamento mortal do Estado (uma superdívida - a maior de toda a história), o desrespeito e a arrogância com o funcionalismo e o magistério, a falta de políticas sociais efetivas para agricultores sem-terra, para pequenos e médios produtores rurais, fim dos Bancos Estaduais. Viu só pra quem ele DEU o BANESPA? Mas não parou por aí. As privatizações (doações) da CSN e VALE DO RIO DOCE, da TELEBRÁS --- é óbvio, depois de ‘enxugar’ todas essas Companhias, promovendo PDVs, PDIs, e outros que tais. Sua pós-graduação atingiu o grau máximo do entreguismo mais desbragado ao DOAR o PARQUE ENERGÉTICO DE QUASE TODO O PAÍS, redundando em sua OBRA mais LUMINOSA: o APAGÃO.

Mas para o REI MIERDAS é pouco. Ele anseia a livre-docência absoluta em matéria de DAR as riquezas do país para os conglomerados. Insatisfeito, planeja a futura privatização da PETROBRÁS, do BANCO DO BRASIL, da CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, das UNIVERSIDADES, da PREVIDÊNCIA etc. Todas a ser entregues também "enxutinhas" para o Grande Capital pegar o ouro e deixar o EXCREMENTO nas mãos da população.

E vou citar exemplos fáceis para todos entenderem: Ele, o rei Mierdas, transformou em EXCREMENTO o ouro do Estado (dinheiro público) para fazer propaganda, promoção pessoal; para tirar doce de criança, gastou US$ MILHÕES DE DÓLARES para pagar DEPUTADOS e SENADORES e AUTORIDADES para comprar a emenda da REELEIÇÃO, outro mandato CARÍSSIMO. Dizem os especialistas mais insuspeitos: fez DECUPLICAR (multiplicar por DEZ), de R$ 58 bilhões para mais de R$ 650 bilhões de reais --- só a DÍVIDA INTERNA. Aumentou o déficit público com juros considerados pornográficos e imorais até mesmo para os padrões vigentes no baixo meretrício palaciano das REPÚBLICAS DE BANANAS.

Às mesmas excelências, ciosas de se leiloarem, foram ofertados outros MILHÕES DE DÓLARES para não haver CPI que investigasse os desmandos e o ODOR provocado pelas ações do rei MIERDAS.

PUBLICIDADE. Como gosta de publicidade o rei MIERDAS! Mitômano, chamou artistas-autistas (que exibiam sua inocente alienação) para dizer que a matéria dourada (o EXCREMENTO) deixada para o povo era OURO... E a educação, no merdódromo em que sua majestade transformou o Brasil, virou educação de primeira!!! Outros "artistas", sem a inocência dos primeiros, mas com o mesmo cachê graúdo, também inventaram das suas.

Quando enviou fax para a SELEÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL, desejando sucesso para a desventurada, deu no que deu: PERDEU. E quando, ARROGANTEMENTE, PARA PURA PROMOÇÃO PESSOAL, DESRESPEITANDO TODOS OS TORCEDORES E AMANTES DO FUTEBOL BRASILEIRO, jogou seu voto palaciano de boa sorte, à custa do dinheiro público, que, a partir daquele insólito, desgraçado momento, NUNCA MAIS NOSSA SELEÇÃO VENCEU MAIS NADA QUE VALHA A PENA SER CITADO, ABSOLUTAMENTE NADA - nem mesmo de Honduras!!! E o PIOR, PREPAREM-SE: ELE, O REI MIERDAS, ASSINOU A BANDEIRA QUE FOI PARA A FRANÇA PARA INCENTIVAR A SELEÇAO BRASILEIRA, E AINDA, CREDO!, ASSISTE AOS JOGOS DAS ELIMINATÓRIAS!!!!! É MAIS DO QUE PRENÚNCIO DE UMA NOVA OBRA!!! Transformou TUDO ISSO, e MUITO MAIS, em EXCREMENTO!!!

Atualmente, o rei MIERDAS está exausto; escreve cartas e mais cartas para os "artistas-autistas". Diz a esses doutos iluminados como tem se empenhado em combater a corrupção.

PORTANTO, povo brasileiro, CUIDADO!!! O rei Mierdas pode continuar TRANSFORMANDO O SEU VOTO, O SEU ESTADO, O BRASIL, O SEU SONHO e a SUA VIDA EM COCÔ... Ou seja, em mais COCÔ. Uma das últimas fábricas em franca atividade na terra em que o que o rei MIERDAS tocando, tudo dá... COCÔ !!!!!!!!!!!